Opinião: a profana relação dos coronéis evangélicos e a política

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O fato político da última em Santa Catarina foi a retirada do apoio da Convenção da Assembleias de Deus do estado (CIADESCP), para a reeleição da deputada federal Geovânia de Sá (PSDB/SC). O fato se deu um dia depois que o Conselho Político da entidade divulgou uma lista de candidatos apoiados pela igreja para o pleito de 2022. A retirada de apoio foi uma reação à declaração da tucana pró candidatura de Eduardo Leite (PSDB/RS) à Presidência da República. A reprovação do apoio da deputada ao governador gaúcho foi motivada por ele ter tornado pública sua sexualidade homoafetiva.

Que religião e política não deveriam se misturar, isso é fato. Porém, desde sempre essas duas esferas se misturam. Uma “empresta” legitimidade à outra. Se você não entende de política não compreenderá a religião e o inverso também é verdadeiro.

O protagonismo evangélico chama a atenção sobretudo porque esse grupo já foi marcado por um ethos de verdadeiro afastamento de qualquer comportamento político partidário, sendo isso, inclusive, fator de orgulho para seus fundadores. Missionários suecos que pregavam que política não era coisa de crente.

Aos poucos, os evangélicos foram mudando de perfil até chegar a ser uma força importante na arena política nacional. O início desta transformação foi no cenário da Constituição de 1988, em que os pentecostais se inserem definitivamente na esfera política, fazendo surgir a “Bancada Evangélica”. Na constituição lutavam contra o comunismo e contra o divórcio. No discurso dos políticos pentecostais na constituição o diabo era vermelho, agora ele veste as cores do arco íris.

Durante minha pesquisa de mestrado, me debrucei sobre o tema para tentar compreender a legitimidade política dos pentecostais em Santa Catarina. Durante dois anos entrevistei lideranças políticas e religiosas além de mergulhar em uma farta documentação sobre o tema. Perdoe-me o jabá, mas o material transformou-se em um livro que foi lançado pela EDIFURB.

Se a “Bancada Evangélica” surge na constituição, o Conselho de Política da Assembleia de Deus aparece depois, como consequência de uma avaliação dos líderes nacionais da entidade a não retribuição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) ao apoio que o também tucano recebeu a sua candidatura à presidência em 1994. Parece que a aliança entre tucanos e assembleianos não são pacíficas. FHC traiu os pastores tentando taxar de impostos os templos e atividades religiosas.

Segundo os documentos da instituição, a função do Conselho é assessorar a convenção de pastores sobre assuntos políticos e, também, compete a ele orientar os membros da instituição a tomarem parte do processo político, seja em caráter nacional ou ainda nas Convenções Regionais. Além de orientar as lideranças e membros da igreja na hora do voto, o órgão também elabora o cadastro de parlamentares representantes das Assembleias de Deus, e ainda, produz relatórios sobre suas atuações.  Esta avaliação pode inclusive propor a destituição de uma representação política quando ela não corresponder aos interesses da igreja. Foi o caso que aconteceu com a deputada catarinense.

Engana-se, porém, que o jogo político dentro da instituição é regido por princípios religiosos. Segundo uma fonte que entrevistei para a pesquisa “a escolha dos candidatos hoje da Igreja visa muito mais o potencial de eleição do que alguma coisa ideológica, ou próprias bandeiras”. Os evangélicos instrumentalizaram a política e se deixam instrumentalizar por ela.

Durante a pesquisa, encontrei relatos sobre a escolha dos candidatos oficiais da CIADESCP e pude escutar que, nos bastidores, os critérios de escolhas dos candidatos nem sempre ocorrem de forma democrática. As lideranças políticas relataram situações de nepotismo, favorecimento de candidatos por conta de amizades e favores políticos.

Na prática, os “ungidos” para serem votados pelos fiéis são escolhidos pelo líderes da Assembleia de Deus. Uma instituição que internamente é regida por um governo eclesiástico que é oligárquico e caudilhesco.  Uma junção do ethos trazido pelos missionários suecos caracterizados pela centralização na figura dos missionários com o coronelismo brasileiro.  O resultado é a centralização na figura do poder de pastores, que sozinhos manipulam as decisões de todo o campo religioso transformando e cacifando este poder religioso em influências sobre o território através do poder político.

Dito de outra forma, o poder político de um integrante da chamada “bancada religiosa” não pertence a ele, mas aos coronéis da fé.  O modelo de governo eclesiástico assembleiano, centralizador, autoritário e gerontocrático, quando expostos a relacionamento com a lógica eleitoral brasileira, reflete aos seus deslizes.  Sobretudo, no que se refere aos seus piores predicados. O machismo, a homofobia e o clientelismo como forma de fidelização eleitoral. A política na Assembleia de Deus é tão profana e contraditória quanto a esfera política secular. E os coronéis pentecostais sabem disso.

3 Comentário

  1. Texto objetivo e esclaredor!

    Já quanto ao comportamento dos “pastores” e outras lideranças dessas igrejas, se verdadeira suas obsessões de céu e inferno não tenho dúvidas que o diabo está em festa os esperando.

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