Opinião | A Parada LGBT de Blumenau não confronta a família. Ela confronta a ideia de que defender a família significa ignorar as violências que acontecem dentro dela

Foto: Alexander Araujo - Almas Através da Lente

Todos os anos, a Parada do Orgulho LGBTIQIAPN+ de Blumenau desperta o mesmo discurso. Para alguns setores políticos e religiosos, ela representaria uma ameaça à família, aos valores cristãos e às crianças. Nos últimos anos, essa narrativa deixou de ocupar apenas as redes sociais e os púlpitos para orientar decisões do poder público. O executivo municipal, ainda em 2025, vetou projetos de promoção dos direitos da população LGBTI+ sob o argumento da defesa da família. Na Assembleia Legislativa, parlamentares apresentaram propostas para restringir a participação de crianças nas Paradas do Orgulho. Em comum, essas iniciativas compartilham a ideia de que a diversidade seria um risco à instituição familiar. 

Mas existe uma pergunta que raramente aparece nesse debate: quem ameaça, de fato, a família catarinense? 

Se abandonarmos os discursos e olharmos para a realidade, a resposta é desconfortável. Santa Catarina é frequentemente apresentada como o estado mais seguro do Brasil. Os baixos índices de homicídios alimentam essa reputação. Entretanto, quando a violência deixa as ruas e entra nas casas, a imagem da excepcionalidade catarinense começa a ruir.

Os dados oficiais desmontam a narrativa de que a principal ameaça à família estaria fora dela. Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Santa Catarina lidera o país em registros de ameaça contra mulheres, com 1.733 ocorrências para cada 100 mil mulheres, mais que o dobro da média nacional. O estado também figura entre os primeiros colocados em violência psicológica, perseguição (stalking), descumprimento de medidas protetivas e lesão corporal praticada em contexto de violência doméstica. O relatório do Observatório da Violência contra a Mulher de Santa Catarina, que analisou mais de 436 mil ocorrências registradas entre 2020 e 2025, demonstra que a violência contra as mulheres não constitui um fenômeno episódico, mas um padrão cotidiano, marcado por centenas de registros diários e concentrado, em sua maioria, no ambiente doméstico e em relações de confiança.

O mesmo padrão se repete quando o olhar se volta para a infância. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública e os levantamentos produzidos por órgãos estaduais mostram Santa Catarina entre os estados com maiores taxas de maus-tratos, abandono de incapaz, lesão corporal e violência sexual contra crianças e adolescentes. Não se trata de eventos excepcionais, mas de uma realidade persistente que revela uma contradição profunda: enquanto o debate público se mobiliza para combater uma suposta ameaça representada pela diversidade, os indicadores apontam que as violações mais graves contra mulheres e crianças continuam ocorrendo, predominantemente, dentro das próprias relações familiares.

Essas violências não acontecem durante a Parada do Orgulho. Não acontecem em uma palestra sobre diversidade. Não acontecem porque duas mulheres ou dois homens decidiram constituir uma família. Acontecem, majoritariamente, dentro das próprias relações familiares tradicionais.

É aqui que aparece o grande paradoxo do conservadorismo catarinense. Enquanto parte da política concentra sua energia em combater uma suposta ameaça representada pela população LGBTI+, os dados mostram que a verdadeira crise da família está em outro lugar. Ela está no feminicídio, na violência doméstica, no abuso sexual infantil, no abandono de idosos, na naturalização da violência e na incapacidade histórica de enfrentar essas realidades com a mesma intensidade dedicada ao que chamam de “ideologia de gênero”.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando observamos Blumenau.

A 8ª Parada do Orgulho LGBTI+ reuniu milhares de pessoas nas ruas da cidade. Mulheres, homens, crianças, idosos, famílias inteiras, pessoas LGBTI+, pessoas heterossexuais, sindicatos, coletivos, organizações da sociedade civil e cidadãos que compreendem uma verdade simples: direitos humanos não são uma ameaça à família. São a condição para que ela possa existir com dignidade.

Vale uma provocação: Quantas manifestações conseguiram reunir milhares de pessoas em Blumenau para denunciar a violência doméstica? Quantos atos públicos mobilizaram a cidade para exigir políticas de enfrentamento ao abuso sexual infantil? Quantas passeatas foram organizadas pelos “defensores da família” para cobrar mais proteção às mulheres ameaçadas ou melhores políticas de prevenção à violência dentro de casa?

A resposta revela muito sobre prioridades.

Paradoxalmente, um dos maiores atos públicos em defesa da vida, da dignidade e da igualdade realizados na cidade é justamente aquele que alguns insistem em apresentar como uma ameaça à família: a parada LGBTQIAPN+ de Blumenau.

Há um equívoco profundo quando direitos humanos e família são colocados em lados opostos. Os direitos humanos começam exatamente quando a família deixa de proteger. Começam quando uma mulher precisa de uma medida protetiva para permanecer viva. Quando uma criança precisa ser retirada de casa porque sofreu violência. Quando um adolescente é expulso do lar por causa de sua orientação sexual. Quando uma pessoa idosa sofre abandono. Quando uma pessoa negra enfrenta o racismo. Nesses momentos, os direitos humanos não enfraquecem a família. Eles protegem pessoas que foram abandonadas por ela ou pelo próprio Estado.

É por isso que a Parada do Orgulho LGBTI+ de Blumenau possui um significado que ultrapassa em muito a celebração da diversidade. Ela representa a capacidade de mobilização de um movimento social que, historicamente, nunca lutou apenas por si. Caminhou ao lado do movimento de mulheres contra a violência patriarcal, do movimento negro contra o racismo, das pessoas com deficiência por inclusão e dos trabalhadores na defesa da dignidade humana. A luta contra a LGBTfobia sempre fez parte de uma luta maior: a superação das estruturas que produzem violência, exclusão e desigualdade.

Talvez esteja na hora de Blumenau inverter a pergunta. Em vez de continuar discutindo se a Parada ameaça a família, talvez devêssemos perguntar por que os mesmos discursos que reivindicam seu monopólio moral permanecem incapazes de mobilizar a sociedade diante das violências que diariamente destroem famílias.

Porque defender a família não é produzir pânico moral contra pessoas LGBTI+. Defender a família é impedir que mulheres sejam ameaçadas, crianças sejam violentadas, idosos sejam abandonados e jovens sejam expulsos de casa por serem quem são. Enquanto isso não estiver no centro do debate público, a defesa da família continuará sendo um slogan. A Parada de Blumenau, ao contrário, continuará lembrando que nenhuma sociedade pode se dizer verdadeiramente segura enquanto milhares de pessoas precisarem lutar, nas ruas, pelo direito mais básico de todos: viver com dignidade e sem violência.

Marlon Ricardo de Amorim, bacharel em Direito, servidor da Justiça Federal de Santa Catarina, educador popular em direitos humanos, membro do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Blumenau e membro do Grupo de Trabalho em Direitos Humanos da Justiça Federal da 4ª Região

2 Comentário

  1. Prezado Sr. Marlon,
    Sua reflexão é pertinentíssima, com a qual concordo em larga medida, ressalvados alguns pontos que gostaria de acrescentar.
    O primeiro deles refere-se à interpretação dos dados sobre violência doméstica em Santa Catarina. Embora os números sejam alarmantes e mereçam toda a atenção, é preciso considerar que parte dessa liderança estatística reflete também a efetividade dos canais de denúncia disponíveis no estado. Santa Catarina oferece condições reais para que vítimas reportem agressões, algo que, lamentavelmente, não ocorre na mesma medida em estados como Maranhão, Ceará ou mesmo Rio de Janeiro, onde a subnotificação mascara uma realidade possivelmente ainda mais grave. Em outras palavras: o alto índice catarinense pode ser, em parte, o reflexo de uma sociedade que começa a romper o silêncio, e isso, paradoxalmente, é um sinal de avanço, não de degeneração.
    O segundo ponto é mais amplo e, talvez, mais delicado. Tenho preocupação com a tendência contemporânea de fragmentar a humanidade em categorias identitárias cada vez mais granulares. Sou branco, sou negro; sou heterossexual, sou homossexual; sou nordestino, sou sulista; sou católico, sou evangélico… a enumeração é interminável e, a meu ver, contraproducente. Essas classificações, ainda que bem-intencionadas em sua origem, têm o efeito colateral de cristalizar diferenças e transformar cidadãos em representantes de grupos supostamente antagônicos. O resultado quase sempre é o mesmo: indivíduos que antes conviviam passam a se enxergar como partes de campos opostos, alimentando ressentimento mútuo onde antes havia, simplesmente, convivência.
    Isso tem sido fortemente estimulado pela esquerda progressista no Brasil e no mundo. Não quero aqui entrar no debate político-partidário, falo de convivência humana. Meu argumento é que toda diferença, seja de orientação, de origem, de fé ou de qualquer outra natureza, deveria ser tratada com a naturalidade de quem reconhece o outro como um legítimo outro ser humano, sem que isso exija manifestação pública, militância ou afirmação de identidade como condição para existir socialmente. Paradas, atos e manifestações que enfatizam a diferença, por mais legítimas que sejam em sua origem, carregam em si o risco de produzir o efeito contrário ao pretendido: polarizam, inflamam e, não raro, retroalimentam o preconceito que dizem combater. Não estou questionando o direito de manifestar, estou questionando a eficácia do método.
    Reduzir a violência passa, inevitavelmente, por reduzir o ódio. E reduzir o ódio começa por recusar a lógica que coloca grupos em permanente oposição. Quando tratamos diferenças com a banalidade saudável de quem simplesmente convive, sem necessidade de afirmar ou defender identidades em praça pública, criamos um terreno muito menos fértil para a violência.
    Concordo integralmente com o senhor na defesa do ser humano mas preciso ressaltar que felizes somos por poder denunciar. É somente tornando a violência visível que ela se torna combatível. E nisso, Santa Catarina, apesar de tudo o que ainda precisa melhorar, tem dado um passo que muitos estados ainda não deram.
    Respeitosamente, Edson José de Souza.

  2. @Marlon Amorim CDDH , vc foi ótimo, parabéns pela coluna, parabéns pela atuação e que possamos continuar com todas as pessoas de mãos em sintonia na construção de um outro mundo possível! sigamos!

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*