Opinião – Comportamento do consumidor: uma crônica de caso

Foto: reprodução internet

Por Jacqueline Leire Roepke – Psicóloga e Mestre em Educação

A influência da publicidade e propaganda no comportamento das pessoas, me intriga há tempos. Tanto é, que quando eu estava na faculdade, foi sobre esse tema que elaborei meu TCC – Trabalho de Conclusão de Curso.

Além de curiosa sobre as formas pelas quais o comportamento de consumidores é afetado, eu também sou mãe.

E por falar em comportamento do consumidor, desde que eu tive acesso à internet e a uma determinada provedora global de filmes e séries de televisão via streaming, eu deixei de ser usuária do que se convencionou chamar de TV aberta.

Minha filha tem 10 anos. Já que ela acessa TV, em alguns lares que ainda não aderiram à internet no televisor, ela continua sendo alvo das propagandas da TV aberta.

Vez ou outra ela chega perto de mim com a solução para os meus problemas, embasada num anúncio publicitário que ela visualizou por aí… E pede para eu comprar esse produto para finalmente obter o que sempre sonhei…
Dias atrás notei que ela estava fazendo uma coleção de xampus, em seu banheiro. Como mãe, eu sugeri que ela acabasse de utilizar um frasco de xampu antes de abrir um novo. Ela respondeu que preferiu experimentar todos os que ela encontrou à sua disposição no armário, e que comprovou que a marca X, era realmente a melhor, tal qual a TV tinha falado.

Como psicóloga e intrometida nos estudos de comportamento de consumidor, e nas estratégias de comunicação persuasiva da publicidade e propaganda, tirei da cartola os resultados das pesquisas sobre esses assuntos e embasei meus argumentos com toda essa parafernália… Saiu algo mais ou menos assim:
– Filha, isso que você viu na TV não passa de estratégia de marketing, fruto de táticas do meio publicitário para aumentar as vendas da solução saponácea usada para lavar os cabelos e o couro cabeludo que você citou.
Depois de discursar por mais de 15 minutos, citando inclusive o sobrenome dos autores e ano das referidas publicações científicas, notei que isso não estava fazendo muito sentido para ela.

Sopesei que, possivelmente, como ela é uma criança de dez anos, o discurso da ciência ainda não esteja exercendo tanta influência em seus pensamentos, ponderações e reflexões. Talvez a ciência ainda não opere poderes tão persuasivos com ela.

Assim, ri sozinha diante dos olhos arregalados dela. Fui guardando todos os autores, pesquisas, e tudo mais na cartola novamente. Recobrei o fôlego. O silêncio ainda estava se materializando ali. Suspirei esperançosa, torcendo que toda aquela minha verborreia sistematicamente organizada fosse gerar algum fruto no comportamento dela.
Semanas passaram.

O frasco do xampu da marca que ela tanta repetia apareceu vazio no espaço destinado aos materiais para reciclagem da nossa casa. Achei melhor recolher o frasco e esconder… Poderia ser útil em alguma ocasião.
A partir de então, ela passou a reclamar de todos os outros xampus que utilizava e reivindicava que eu comprasse AQUELE BENDITO XAMPU o quanto antes.

Ela comentou que cogitou usar quantidades exageradas para que aqueles xampus ruins (eram ruins porque não estavam passando nas propagandas, diga-se de passagem) acabassem logo, mas, como na opinião dela, esses xampus não faziam muito bem aos cabelos, achava melhor usar uma dosagem menor. Então, ela estava atravessando esse emaranhado conflito.

Apesar de ficar estarrecida com a falta de persuasão em meu discurso tão cientificamente embasado, e o pior de tudo, pela falta de persuasão do meu discurso de mãe, eu me senti tão irritada com a situação que resolvi mudar de estratégia!

Achando-me muito esperta, retomei o frasco vazio de seu esconderijo secreto, abri o frasco vazio do afamado – e por isso – “preferido” xampu dela, e derramei os restos dos outros ali. Chacoalhei a embalagem e torci que ficasse uma mistura consideravelmente homogênea.

Depois disso, assim que ela lavou os cabelos, apareceu desfilando pela sala muito agradecida por eu ter comprado AQUELE xampu. Ela balançava os cabelos, passando seus dedos entre eles, dizendo que é visível que com essa marca o cabelo dela fica com mais brilho, e mais isso, e mais aquele outro – no caso, ela usou as palavras veiculadas nas propagandas televisivas.

Eu gargalhei por dentro e sorri comedidamente por fora.
Engoli em seco.

Apesar de ter sido um jeito de evitar o desperdício dos demais xampus, isso teria sido ético de minha parte? Configuraria uma mentira? Não falei nada sobre isso com ela. Será que mentira só é mentira quando é falada?
E nós, adultos, quantas vezes usamos “misturas consideravelmente homogêneas” achando utilizar um produto original?

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