Alvo incerto

Suzana Sedrez

Psicóloga, Dra. em Educação, Mestre em Ciências Sociais

 

O jogo de palavras estava disposto em seus excessos.

Várias ausências incompreendidas em volta da mesa redonda, sob o tapete quadrado e desgastado. Pensamentos soltos e tragados pela centrífuga das cordas do tempo dos não ditos. Ao fundo, um disco trincado na mesma melodia. Fantasmas que ainda expõem o passado a limpo da vida solitária que segue vã, nos contornos (e entorno) desconhecidos e insinceros.

Ecoam impropérios cegos aos apelos surdos pelo que é revisto e repetido na interdição. Repetição da compulsão no vício de teimar com a razão. Emoção refém do desarranjo que se esvai em dor. Martela, martela o desejo de ser observado suportando existir, apesar dela: a vida.

Despreza o que está próximo e aponta o dedo acusador num alvo incerto. Não tem pele. Carne viva de raiva contida.

Uma vida de frustração. Não quer estar aqui. Quer ir, fugir sem destino, apesar do preço de existir e de fazer escolhas. Enquanto supõe saúde, vale. Joga alto no hedonismo e pensa se bastar. Os critérios estão frouxos e perdidos. Está doente e não reconhece. Fera indomada sob o efeito de fármaco antagonista.

Como remediar anos de pensamentos gritados e intrusivos? Pulsões espremidas e torcidas em volta de ocos vazios. Emoções em redemoinho que descolam do bom senso. Não há lugar. Não há onde se segurar. Tudo se esfarela. Tudo esbarra nela: a vida.

Pensa não ter escolhas. Negar escolher é seu porto seguro. Mesmo assim há dúvidas. Ali se pendura e se pergunta até quando? Bem baixinho acalenta seu sintoma: vai passar, acredite, sempre passa.

Deseja que os pensamentos adormeçam. Encolhe-se na travessia dos estágios da falta de lucidez. Acalma o corpo retesado e prostrado de uma vida sem sentido.

Outra chance é o que deseja para si. É possível, por minutos, é possível.

 

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