O terceiro mandato de Lula está chegando ao fim. Mas, afinal, o que ficou de bom para a economia brasileira? O governo comemora o crescimento do PIB e a queda do desemprego. Entretanto, basta olhar para as contas públicas, para as dívidas das famílias e para as dificuldades das empresas para perceber que a situação está longe de ser confortável.
O Brasil continua apostando em uma velha receita: aumentar gastos públicos, distribuir benefícios e estimular o consumo. Isso pode movimentar a economia por algum tempo, mas não garante prosperidade. Afinal, de que adianta incentivar as pessoas a consumir se não criamos condições para que elas tenham empregos melhores, aumentem sua renda e dependam cada vez menos do governo?
Não se trata de condenar os programas sociais. Eles são necessários para quem realmente precisa. O problema é quando deixam de funcionar como uma ponte para a autonomia e passam a ser tratados como uma solução permanente para a pobreza. Um país não fica rico distribuindo dinheiro. Fica rico quando produz mais, investe, aumenta sua produtividade e cria oportunidades.
Os números mostram que há algo errado. Em setembro de 2026, segundo a Confederação Nacional do Comércio, 81,7% das famílias brasileiras tinham dívidas e quase 30% estavam com contas atrasadas. Estar endividado não significa necessariamente estar em dificuldades, mas atrasar pagamentos é um sinal de alerta. Quando boa parte da renda vai para prestações e juros, sobra menos dinheiro para o básico.
Com as empresas, a situação também preocupa. Segundo a Serasa Experian, o Brasil tinha aproximadamente 9,3 milhões de empresas inadimplentes em agosto de 2026, acumulando R$ 244 bilhões em dívidas negativadas. Estamos falando de negócios que produzem, vendem, pagam impostos e empregam pessoas. Muitos continuam funcionando, mas enfrentam dificuldades para pagar suas contas. E empresa sem saúde financeira dificilmente investe ou contrata.
Enquanto isso, o próprio governo continua aumentando suas despesas. Em 2023, Lula substituiu o teto de gastos por um novo conjunto de regras que permite ampliar os gastos acima da inflação, dentro de certos limites. O resultado é que a dívida pública permanece em trajetória preocupante. A Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, projeta que ela poderá chegar a 86,4% do PIB em 2027.
E o que isso significa para quem não é economista? Significa que o governo precisa de cada vez mais recursos para financiar suas obrigações. Quanto maior a desconfiança sobre sua capacidade de controlar as contas, maiores tendem a ser os juros exigidos pelos investidores. E esses juros acabam afetando o crédito para empresas e consumidores.
Pense no pequeno empresário que deseja comprar uma máquina, ampliar sua loja ou contratar mais um funcionário. Com financiamento caro e vendas incertas, ele provavelmente vai esperar. O produtor rural enfrenta o mesmo problema ao financiar equipamentos e a próxima safra. O investimento que não acontece hoje pode representar o emprego que não será criado amanhã.
É preciso lembrar que Bolsonaro enfrentou uma situação excepcional: a pandemia de Covid-19, que paralisou atividades, destruiu empregos e exigiu gastos emergenciais para socorrer milhões de brasileiros. Lula, por sua vez, governou em condições muito mais favoráveis. Embora tenha enfrentado dificuldades internas e externas, nenhuma delas teve impacto econômico comparável ao da pandemia.
Mesmo assim, após quatro anos, o país continua com dificuldades para equilibrar as contas públicas, controlar o endividamento e criar condições mais favoráveis ao investimento. Se nem em um período relativamente favorável o governo conseguiu colocar as finanças públicas em uma trajetória sustentável, o que acontecerá quando vier uma crise de maiores proporções?
Para estados como Paraná e Santa Catarina, onde a indústria, o agronegócio e as pequenas empresas têm grande peso na economia, isso é especialmente preocupante. Quem produz precisa de crédito acessível, infraestrutura, regras claras e confiança para investir. Não precisa de mais incertezas.
O Brasil não pode continuar confundindo aumento do consumo com desenvolvimento econômico. Consumir é importante, mas alguém precisa produzir, investir e gerar a renda que sustenta esse consumo. E não existe política social duradoura sem uma economia capaz de financiá-la.
O terceiro mandato de Lula apresentou alguns resultados positivos, mas deixou problemas que não podem ser escondidos atrás das estatísticas de crescimento. A dívida pública elevada, os juros altos e a fragilidade financeira de milhões de famílias e empresas mostram os limites desse modelo.
O Brasil precisa de menos dependência do Estado e mais condições para quem trabalha, produz e empreende prosperar. Não basta distribuir renda. É preciso criar oportunidades para que as pessoas possam conquistá-la.
E há um alerta para 2027: se o governo insistir nesse caminho e perder a confiança dos investidores, os problemas poderão ir muito além dos juros altos. Dólar em disparada, inflação e até recessão entram no horizonte de riscos. É sobre esse cenário, e sobre como ele poderia se tornar realidade, que tratarei no próximo artigo.
Jorge Amaro Bastos Alves, Economista




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