O resultado do primeiro turno das eleições manifestou mais que a escolha periódica de uma maioria. Representa a insistência de um novo ciclo, em que uma experiência política se esgota à esquerda, deixa marcas, e a história responde à direita, como uma espécie de síntese, preparando a transição de um novo ciclo. É um movimento de vários sinais, mas não é a lei do eterno retorno: é a dialética, cuja tensão entre os contrários sempre gera algo novo e paradoxal.
O Brasil chega ao segundo turno com a vantagem da direita (47% a 45%) e sua capacidade de ultrapassar a metade dos votos válidos no 2º turno. No 1º turno de 2022, Lula obteve 48% dos votos e Jair Bolsonaro 43%. Lula conquistou alguns votos de Simone Tebet e Ciro Gomes e venceu o segundo turno. Neste segundo turno de 2026, o cenário é favorável a Flávio Bolsonaro. No legislativo, isso transparece: na Câmara dos deputados, cerca de 60% são de direita e no Senado são, simplesmente, 2/3. Já, o número de governadores de direita deve ultrapassar os 2/3 no 2º turno.
Em SC, a fronteira do conservadorismo foi ultrapassada. Catarinenses elegeram, fiel e generosamente, mais um carioca ao senado, e o Rio de Janeiro agradece, com C. Bolsonaro e J. Seif. Chega a ser irônico acusar o estado de xenofobia. Uma nova geração de autoproclamados conservadores inaugurou um pós-conservadorismo, ao ignorar a regra de ouro, em semelhança aos oponentes: a regra é o comunitarismo e a desconfiança com forasteiros, origem de um preconceito vital ao homem do interior. Agora, trata-se de um pós-conservadorismo universalista, sem preconceito com o diferente, típico de uma sutil educação progressista. O filósofo Olavo de Carvalho já havia previsto.
Outro preconceito conservador que o progressismo igualitário quebrou: a cisma com os menos instruídos. Não é de hoje, mas fica mais e mais evidente que os pós-conservadores não dão a mínima pra instrução educacional, sequer à inteligência. Em pleno Vale do Itajaí, elegem um vereador, com segundo grau, dificuldades de expressão verbal e cognitiva. O elegem no lugar de um administrador público, com duas graduações e mestrado em políticas públicas por uma das melhores universidades do Mundo. Sem julgamentos: mais um ensinamento progressista que o autoproclamado “conservador raiz” assimilou em favor da diversidade e do igualitarismo sem preconceitos.
É um ardil ideológico construído ao longo de décadas: quando o defensor de pautas conservadoras age como o seu oponente, ainda que os valores se choquem, o pressuposto mental os iguala: somos todos irmãos. O oponente entrega os anéis, mas preserva os dedos e mantém o controle cerebral. Resguarda a mentalidade universalista, apregoada pelos organismos internacionais, sugerindo hospitalidade aos estranhos. É o chupim no ninho do tico-tico.
Novamente, o filósofo advertia: a esquerda estudou, apanhou, mas aprendeu a perder no curto prazo e ganhar no longo. Isso não impede o advento de um ciclo conservador, mas carrega sinais progressistas indeléveis, como a defesa das grandes causas e de um mundo sem fronteiras, sem preconceitos a culturas e sotaques. É a história, controlada pela cultura hegemônica, tecida ao longo de ¾ de século. Então, já não é a história como o eterno retorno, mas como a dialética, cheia de contradições e paradoxos.
Assim, o “neoconservador” incorporou um pressuposto antes exclusivamente progressista: a ideia de que princípios políticos podem valer pra além da comunidade territorial. É curioso. O catarinense que sempre valorizou o candidato da terra vota num carioca porque enxerga nele algo maior do que o seu próprio estado e sua identidade comunitária. Ele se desvincula, inclusive, do preconceito arraigado sobre a corrupção endêmica, a milícia e o crime organizado da política carioca. Como o progressista, ele já não se importa, só finge que se importa e aprendeu a passar pano.
O vínculo identitário já não é comunitário e então não é mais “ele não é daqui”. Agora é “ele é dos nossos, comunga de nossa ideologia universal”. A comunidade deixa de ser territorial, tornando-se parte da aldeia global e cosmopolita. O bairrismo já não existe e o patriotismo aceita outras bandeiras, numa estratégia de pertencimento essencialmente globalista, própria do progressismo que desloca a lealdade do espaço comunitário a causas superiores às da terra onde se vive.
É exatamente assim que o progressismo já entendia o papel do Senado; agora, o “pós-conservador, o neoconservador “raiz”, pensa da mesma maneira. O pertencimento já não se define pela história e cultura do território compartilhado. Se orienta pela adesão a uma causa global, no interior da qual, seja de onde for, o candidato é bem-vindo. E se a causa for o impeachment de um juiz safado, ainda que se concorde com isso, as principais atribuições do senador pouco importam. Infraestrutura, transportes, saúde, educação, segurança, desenvolvimento econômico, pacto federativo? “Não sei, não me interessa”.
Em 2025, a Federação das Indústrias de Santa Catarina – FIESC, entidade icônica do verdadeiro conservadorismo catarinense, publicava um manifesto contrário à candidatura de um forasteiro. A completa indiferença de 36,5% do eleitorado, composto por esses pós-conservadores, não apenas ajuda a entender o aparente fim de um ciclo da esquerda nacional, mas também do tradicional conservadorismo local. Talvez a historiografia progressista venha a reconhecer isso como um avanço democrático na direção da diversidade e da paz perpétua. Algo que, pelos meus preconceitos, está além da minha compreensão.
PS: no próximo artigo, pretendo apontar razões para o esgotamento da experiência progressista na política nacional.
Walter Marcos Knaesel Birkner, sociólogo




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