Opinião | Entre a dissuasão e a escalada: o mundo diante de duas crises que se aproximam do limite

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O sistema internacional atravessa uma conjuntura em que a distância entre a crise diplomática e o confronto militar parece progressivamente menor. Na Europa e no Oriente Médio, movimentos distintos convergem para um mesmo fenômeno: a erosão gradual dos mecanismos de contenção que, durante décadas, procuraram impedir que disputas entre Estados se transformassem em guerras de grandes proporções. De um lado, Rússia e países ocidentais aprofundam uma ruptura política acompanhada por ameaças cada vez mais contundentes. De outro, Estados Unidos e Irã protagonizam uma escalada militar que já alcança bases e instalações estratégicas de terceiros países. O aspecto mais preocupante, portanto, não está apenas na intensidade dos episódios isolados, mas na possibilidade de que sucessivas retaliações produzam uma dinâmica autônoma de escalada.

Na Europa, a deterioração das relações entre Moscou e Berlim adquiriu uma dimensão particularmente grave. O fechamento do Consulado Geral da Alemanha em São Petersburgo e a proibição das atividades do Goethe-Institut na Rússia, apresentados como resposta às medidas adotadas anteriormente pelo governo alemão contra representações russas, simbolizam o aprofundamento de uma lógica de reciprocidade hostil. Na linguagem das Relações Internacionais, trata-se de uma dinâmica de tit-for-tat: cada medida produz uma resposta equivalente ou ainda mais severa, reduzindo progressivamente os canais de diálogo. Quando missões diplomáticas deixam de funcionar, diminui também a capacidade de comunicação direta justamente no momento em que ela se torna mais necessária.

A acusação alemã de envolvimento russo em uma tentativa de ataque com drones no Aeroporto de Leipzig/Halle acrescenta uma dimensão ainda mais delicada ao conflito. Caso episódios dessa natureza sejam interpretados como atos de guerra, terrorismo ou sabotagem patrocinada por Estado, a fronteira entre competição estratégica e agressão militar torna-se perigosamente ambígua. É nesse espaço que se desenvolve aquilo que a literatura especializada costuma denominar guerra híbrida: a combinação de instrumentos militares, cibernéticos, econômicos, informacionais e clandestinos para pressionar um adversário sem necessariamente recorrer, de imediato, a uma guerra convencional aberta.

O problema é que a guerra híbrida pode produzir consequências convencionais. Uma sabotagem, um ataque cibernético, uma operação clandestina ou um incidente envolvendo drones pode provocar uma resposta militar caso o Estado atingido considere que sua soberania foi violada. A partir daí, instala-se um dilema clássico da segurança internacional: quanto maior a percepção de ameaça, maior a disposição para ampliar os mecanismos de defesa; quanto mais um Estado amplia sua preparação militar, maior pode ser a percepção de ameaça por parte do adversário. Forma-se, assim, o chamado dilema de segurança, no qual medidas tomadas com finalidade defensiva podem ser interpretadas como preparativos ofensivos.

A retórica proveniente de Moscou acrescenta outro componente de risco. Declarações que apresentam um eventual confronto direto entre Rússia e Europa como uma guerra de rápida destruição procuram produzir um efeito de dissuasão: advertir o adversário sobre os custos potencialmente catastróficos de ultrapassar determinadas linhas. A lógica da dissuasão, contudo, depende da existência de comunicação, cálculo racional e percepção relativamente clara dos limites que não devem ser ultrapassados. Quando predominam ameaças, acusações e rupturas diplomáticas, aumenta o perigo de erros de interpretação. Em um ambiente envolvendo uma potência nuclear, um erro de cálculo pode ter consequências muito superiores às de uma crise convencional.

No Oriente Médio, a situação apresenta uma característica ainda mais preocupante: a escalada já ultrapassou o campo da retórica. Os ataques atribuídos ao Irã contra instalações militares utilizadas pelos Estados Unidos em território jordaniano demonstram como conflitos regionais podem transbordar fronteiras e envolver diretamente países que não necessariamente desejam participar de uma guerra ampliada. A Base Aérea de Muwaffaq Salti, por sua localização estratégica, ilustra a importância da Jordânia na arquitetura militar norte-americana na região. O emprego de mísseis balísticos e drones de longo alcance transforma o território jordaniano em mais um espaço de disputa dentro da crescente confrontação entre Washington e Teerã.

A resposta defensiva americana e jordaniana evidencia outro elemento central da geopolítica contemporânea: a importância crescente da defesa antimísseis. O emprego de interceptadores Patriot e a atuação das forças jordanianas para impedir que os projéteis atingissem seus alvos demonstram que, em um ambiente de ataques de longo alcance, a defesa aérea passou a constituir um dos principais instrumentos de contenção. Entretanto, sistemas defensivos possuem limitações técnicas, estoques finitos e custos elevados. Uma guerra prolongada pode consumir rapidamente munições e equipamentos de defesa, pressionando as capacidades militares dos países envolvidos e de seus aliados.

A justificativa iraniana de legítima defesa, apresentada como resposta à destruição de embarcações comerciais iranianas por forças norte-americanas, acrescenta uma dimensão jurídica e política à crise. Em conflitos dessa natureza, cada lado procura apresentar suas ações como defensivas e as ações do adversário como agressivas. Essa disputa de narrativas não é secundária: ela influencia a opinião pública, a posição de aliados e a legitimidade internacional de cada governo. A guerra contemporânea, portanto, não é travada somente no campo de batalha. Ela também ocorre no campo da informação, da diplomacia e da construção de legitimidades.

É justamente a combinação entre esses fatores que torna as duas crises especialmente perigosas. Na Europa, a escalada ocorre principalmente por meio da ruptura diplomática, da guerra híbrida, das acusações recíprocas e da ameaça de confronto direto entre Rússia e países europeus. No Oriente Médio, a dinâmica é mais militarizada, envolvendo ataques com mísseis, drones, interceptações e instalações militares. Apesar das diferenças, os dois teatros apresentam uma característica comum: a possibilidade de que um episódio localizado desencadeie uma reação maior do que aquela originalmente planejada.

Na Europa, um eventual ataque contra território de um Estado-membro da OTAN poderia provocar debates sobre a aplicação do Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, segundo o qual um ataque armado contra um membro é considerado uma agressão contra todos. Isso não significa que qualquer incidente automaticamente produza uma guerra geral entre Rússia e OTAN, mas a existência dessa cláusula transforma determinados episódios em potenciais pontos de inflexão. Quanto mais próximo o conflito chega de territórios e forças diretamente vinculados à Aliança Atlântica, maior se torna o risco de uma escalada que envolva novos atores.

No Oriente Médio, o perigo reside na expansão geográfica do conflito. A presença de forças americanas em diferentes países da região, a importância estratégica das rotas marítimas e energéticas e a existência de grupos aliados ou parceiros de diferentes potências formam uma complexa rede de interdependências. Um ataque contra uma base pode gerar uma retaliação; essa retaliação pode atingir outro território; uma nova resposta pode comprometer rotas marítimas; e a interrupção do comércio energético pode produzir efeitos muito além do Oriente Médio. Nesse sentido, a geopolítica regional possui capacidade de gerar impactos econômicos globais.

O petróleo constitui um dos principais canais dessa transmissão de instabilidade. O Golfo Pérsico e suas rotas de saída possuem importância estratégica para o mercado mundial de energia. Qualquer ameaça persistente à circulação de petróleo pode elevar custos de transporte, seguros e energia, pressionando a inflação internacional. Países altamente dependentes da importação de combustíveis seriam particularmente vulneráveis. Assim, uma guerra regional pode rapidamente transformar-se em problema econômico global, afetando preços, cadeias produtivas, comércio e crescimento econômico.

Há ainda um elemento que aproxima as duas crises de maneira particularmente inquietante: a existência de arsenais nucleares e de estruturas militares de grande capacidade. A Rússia é uma potência nuclear, enquanto os Estados Unidos também possuem um dos maiores arsenais nucleares do mundo. Embora a existência dessas armas tenha historicamente funcionado como instrumento de dissuasão, ela também aumenta o custo potencial de erros de cálculo. A lógica da dissuasão pressupõe que os governos consigam avaliar racionalmente os riscos. Entretanto, guerras prolongadas, informações incompletas, pressões políticas e acidentes podem reduzir a margem de segurança existente entre ameaça e ação.

Por isso, o maior perigo talvez não seja a decisão deliberada de iniciar uma guerra mundial, mas a sucessão de pequenas escaladas que torne cada nova resposta aparentemente inevitável. Uma retaliação é justificada pela anterior; uma nova operação militar é apresentada como resposta defensiva; um novo pacote de sanções gera contramedidas; uma movimentação de tropas provoca outra movimentação; um ataque limitado exige uma resposta para preservar a credibilidade. Esse mecanismo pode produzir uma espécie de “escada da escalada”, na qual cada degrau torna mais difícil retornar ao ponto de partida.

O cenário exige, portanto, recuperar justamente aquilo que as crises vêm enfraquecendo: os canais diplomáticos. A diplomacia não elimina conflitos de interesses, mas cria mecanismos para administrá-los. Mesmo durante períodos de intensa rivalidade, a existência de embaixadas, consulados, linhas diretas entre governos, negociações indiretas e fóruns multilaterais pode funcionar como instrumento de prevenção de acidentes e de interpretação de sinais. Quando esses canais são fechados, os Estados passam a depender mais de demonstrações militares e de declarações públicas, aumentando a possibilidade de interpretações equivocadas.

A conjuntura internacional não indica necessariamente que uma guerra generalizada seja inevitável. Potências possuem incentivos para evitar confrontos de consequências imprevisíveis, sobretudo quando estão envolvidas armas nucleares, comércio internacional e alianças militares. Entretanto, a ausência de inevitabilidade não significa ausência de perigo. O risco pode crescer de maneira paulatina justamente porque cada crise, isoladamente, parece administrável. O problema surge quando várias crises se acumulam simultaneamente e os mecanismos de contenção deixam de acompanhar a velocidade da escalada.

Europa e Oriente Médio apresentam, assim, dois laboratórios distintos de uma mesma transformação do sistema internacional: a crescente dificuldade de separar competição estratégica, guerra híbrida, conflitos regionais e confrontos entre grandes potências. O mundo não precisa chegar a uma guerra global para experimentar suas consequências. Bastam ataques limitados, interrupções de rotas energéticas, corrida armamentista, aumento dos gastos militares, deterioração das relações diplomáticas e expansão da insegurança internacional para produzir danos significativos.

O verdadeiro desafio geopolítico, portanto, não consiste apenas em identificar quem possui maior capacidade militar, mas em impedir que a lógica da retaliação substitua completamente a lógica da negociação. Quando a dissuasão deixa de ser acompanhada por diálogo, ela pode transformar-se em uma aposta cada vez mais arriscada. E quando cada adversário acredita que recuar significa demonstrar fraqueza, a possibilidade de compromisso diminui justamente quando ele se torna mais necessário. A maior ameaça das crises atuais talvez esteja exatamente aí: não em um único acontecimento capaz de incendiar o mundo, mas em uma sequência de decisões que, pouco a pouco, reduza as alternativas à escalada.

Rafael Garcia dos Santos, Professor,  sociólogo e pesquisador em Geopolítica e Relações Internacionais

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