Em ano de Copa e eleição, o Brasil entra naquele estado emocional curioso em que todo mundo vira técnico da seleção, cientista político de botequim e fiscal da moral alheia. O país discute escalação, corrupção, patriotismo e caráter com a mesma profundidade de um comentário de rede social. Tudo no grito, tudo no meme, tudo na conveniência.
A verdade é que o brasileiro médio não quer coerência. Quer torcida.
No futebol, a Seleção Brasileira virou um produto publicitário vestido de amarelo fluorescente. Há muito tempo deixou de representar espontaneamente o povo para representar contratos, campanhas, patrocinadores e marketing emocional. O torcedor reclama que “não existe mais amor à camisa”, mas passa quatro anos consumindo influencer, casa de aposta, uniforme novo e propaganda de banco narrada com música épica. Critica os jogadores por parecerem distantes da realidade do povo enquanto idolatra atletas transformados em marcas ambulantes.
Na política acontece exatamente a mesma coisa.
O eleitor brasileiro não escolhe projeto de país, escolhe personagem. Não vota em propostas, vota em estética. Um candidato precisa parecer forte, popular, humilde, religioso, patriota ou “gente como a gente”. A política virou um campeonato de branding emocional. E, assim como no futebol, o desempenho quase sempre importa menos do que a narrativa.
Quando a Seleção perde, a culpa é do técnico, da CBF, da geração TikTok, do cabelo colorido ou do empresário dos jogadores. Nunca da ilusão coletiva criada em torno de um time vendido como imbatível antes mesmo de entrar em campo.
Na política também é assim. A corrupção é sempre do outro lado. O fanático político brasileiro desenvolveu a incrível capacidade intelectual de transformar qualquer escândalo do seu grupo em perseguição, narrativa da imprensa ou “erro isolado”. Já o adversário é tratado como a própria encarnação do colapso moral da República.
Não existe mais indignação ética. Existe torcida organizada ideológica.
O sujeito que ontem gritava contra corrupção hoje relativiza desvio porque “o importante é combater o inimigo”. O mesmo eleitor que dizia defender honestidade absoluta passa a explicar rachadinha, orçamento secreto, compra de apoio, emenda suspeita ou abuso institucional como se estivesse comentando impedimento no VAR.
O Brasil não discute princípios, discute pertencimento.
E talvez seja por isso que a Seleção e a Presidência da República tenham se tornado símbolos tão parecidos: ambas vivem de passado, propaganda e expectativa emocional. A camisa pesa menos do que antigamente porque a identidade nacional virou disputa de marketing. O cargo de presidente também perdeu densidade moral porque grande parte da população já não exige estadista, exige apenas alguém que confirme suas crenças e ataque seus inimigos.
O patriotismo brasileiro virou sazonal. Aparece na Copa, desaparece no cotidiano. Surge no hino antes do jogo, mas não suporta cinco minutos de debate sério sobre desigualdade, fome, racismo, educação ou corrupção estrutural.
E há uma ironia cruel nisso tudo: enquanto o povo briga nas redes sociais defendendo político milionário e jogador patrocinado por multinacional, os problemas reais seguem intocados. O hospital continua lotado, a escola segue precária, o salário continua insuficiente e o custo de vida aumenta sem piedade. Mas desde que a torcida vença o debate online, parece que já valeu o campeonato.
Talvez o maior problema do Brasil não seja a falta de personalidade da Seleção ou dos políticos. Talvez seja a ausência de personalidade crítica da própria sociedade.
Porque um país que transforma cidadania em torcida inevitavelmente acaba governado por marqueteiros e representado por publicidade.
Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos



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