É bem popular a história que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. A física está ai para provar que não é bem assim e, mesmo com artifícios para evitar, um local pode atrair a fúria de Zeus em mais de um infortúnio. Na política, então, esta máxima não é nada verdadeira. Seja no exercício diário, no plenário, no executivo, ou em conchavos e acordos eleitorais, as coisas do imprevisto se repetem, até com uma frequência incomoda.
Se existisse uma pesquisa em que os participantes fossem convidados a definir o rumo dos políticos, eu arrisco dizer que muitos seriam aqueles que responderiam: o raio que os partam. O dito popular quase aconteceu no fim da “Caminhada pela Liberdade”, comandada pelo deputado Nikolas Ferreira. Perto de uma centena de pessoas ficaram feridas na Praça do Cruzeiro. Foi um daqueles acidentes que a natureza entrega como aviso, ou como paródia, vai saber.
A alta voltagem de Brasília se estendeu com os ventos que sopraram até Santa Catarina. Só que essa energia toda não veio do céu, mas dos bastidores da política. Jorginho Mello anunciou o prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), como o seu possível vice na chapa de reeleição. Ato contínuo o PL, partido do governador, comunicou que interviria no comando da legenda local caso Carlos Bolsonaro não for homologado candidato a senador. Com isso, parceiros de governo foram jogados fora: PP e o MDB descartados como quem troca de camiseta velha.
O resto da história até agora você já deve saber. Romperam com a base do governo, orientaram o desembarque dos cargos que ocupavam e o tempo endureceu a relação do grupo. Um emedebista graduado, Renan Filho, ministro dos Transportes do governo Lula, não poupou crítica ao governador. “Uma das manias de quem não entrega resultado é tentar transferir a responsabilidade”, disparou em vídeo publicado nas redes sociais no último dia de janeiro. Renan cravou que o catarinense não duplicou um quilômetro sequer de rodovia estadual e chamou o governo de “retrógrado”. Um sinal claro que o MDB não está mais com Jorginho.
Seria este o barulho, um sinal que um raio pode novamente cair no Palácio da Agronômica, mudando o roteiro que já parece escrito para a próxima eleição? Esperidião Amin conhece bem o sabor dessa derrota. Em 1998 venceu a eleição em primeiro turno, governava o Estado com ampla aliança de partidos de direita e, até chegar à eleição, liderava todas pesquisas. Ao final de 2002, porém, com apenas 21 mil votos de vantagem, Luiz Henrique da Silveira virou o jogo e venceu a disputa. A diferença foi estreita, mas a lição foi clara e recomenda que o cabeça de chapa seja gentil com o colequinha de outra legenda. Como dizia Pepe Mujica, “o limite é não foder o próximo”. Talvez Jorginho não acredite nisso, e optou em menosprezar aliados, algo que pode custar caro.
Historicamente, Santa Catarina reelegeu apenas dois governadores: Luiz Henrique da Silveira e Raimundo Colombo. Conquistar um segundo mandato consecutivo é uma exceção, quase uma raridade estatística. Jorginho pode ter esquecido desse ensinamento. Afinal, atrai para o círculo dele outros complicadores além da probabilidade. Crer que está sacramentada a aliança com o Novo, por exemplo, é no mínimo arriscado. O partido escolheu Romeu Zema como pré-candidato à Presidência. E o chefe do executivo mineiro está amarrado ao PSD, que encabeçará a aliança para o governo de Minas Gerais. Uma parceria que se repete em boa parte do Brasil. Uma união entre as duas siglas impediria a coligação com o PL aqui no Estado.
Nassim Taleb, autor de “Antifrágil”, argumenta que é preciso vestir o melhor traje para “o dia da sua execução, e tente deixar uma boa impressão junto ao pelotão de fuzilamento, permanecendo empertigado e orgulhoso”. Jorginho tem tentado fazer isso. Conta com aprovação alta da gestão, possui a máquina do governo, tem um Bolsonaro na chapa e o PL como fator de vitrine nacional. Mas, seria suficiente? E se o raio cair de novo no mesmo lugar, com a improvável derrota do incumbente? Bom, desta vez pode não ser coincidência, mas consequência… Mais alguns meses e veremos qual será o rumo que os céus apontarão.
Fonte: Tarciso Souza, jornalista e empresário


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