Outro dia, neste início do ano, recebi em um grupo de Whatsapp de amigos a informação que Blumenau está entre as cidades com mais cadastros nestas plataformas de sugar daddy, mommy, baby, que, na prática, é a prostituição moderna. Nada contra, só acho interessante que o destaque caia no colo – com todo respeito, é claro – de um dos recantos mais conservadores do Brasil. Estes sites de relacionamentos abertos também destacam a proeminência que eleva o Vale do Itajaí ao topo dos adeptos.
Mas, se contamos com tanta gente, com o perdão da palavra, fodendo sem vergonha de declarar nas redes, por que raios ainda existem tantos chatos que buscam “cagar regras”, impor seus pensamentos e intolerâncias com o modo de viver de cada um? Seria bem mais produtivo que guardassem as energias para as paixões que ficam dentro de quatro paredes.
Há algo profundamente melancólico em ter saudades de uma polêmica. Confesso a minha favorita por aqui: lá em 2006, diante de uma “epidemia” de medicamentos para enfrentamento da depressão, um médico de uma unidade de saúde de Blumenau teve a brilhante ideia de recomendar sexo como antídoto. O assunto rendeu, ganhou destaque no Fantástico e em outros veículos da imprensa nacional. Todo mundo só falava naquilo!
Por mais bizarros que parecessem na época, aqueles escândalos eram deliciosamente inofensivos. Quando muito, os mais esquentadinhos torciam o bigode indignados com a ideia de que prazer pudesse ter função terapêutica. Outros discutiam a posição dos mobiliários urbanos instalados na Av. Presidente Castelo Branco, a Beira Rio. Uns poucos guardavam toda fúria para a poda de árvores históricas, carregadas de memória afetiva para os munícipes.
Havia ali, por mais desajeitada que fosse a formulação, conversas sobre saúde pública, limites das medicalizações, interferência na urbanidade, proteção ao meio-ambiente. Eram polêmicas que, no fundo, tratavam da nossa humanidade – dos prazeres negados -, ou de coisas que estavam ao alcance da coletividade alterar para melhorar o bem-estar geral.
Ao menos, tudo que estimulava as discussões nas esquinas da cidade, aquelas polêmicas tocavam em algo real. Hoje, o que escandaliza os blumenauenses? Vivemos a era do reacionarismo voluntário, da certeza inabalável em temas sobre os quais o município é absolutamente irrelevante. Comunismo, direita, esquerda, banheiro unissex, guerras… A paixão que poderia ser direcionada para construir pontes, para cuidar uns dos outros, imaginar futuros possíveis, se dissipa em furor ideológico estéril.
A cidade que um dia se horrorizou com a sugestão de que o prazer pudesse curar, agora reserva toda sua energia para adorar políticos distantes, policiar esquinas, recriminar qualquer pequeno desvio do script que abraçou com o fervor quase religioso. É um amor devotado, apaixonado mesmo, dirigido a figuras que nunca saberão seus nomes, talvez nunca cruzarão um simples olhar nas calçadas esburacadas e, por óbvio, jamais retribuirão esse afeto delirante.
Em 2006, o escândalo estava na recomendação de usar um tipo de fogo – o do desejo – para produzir felicidade através da química do próprio corpo. Como ironia cruel, 20 anos depois, queimam essa mesma energia em tribunas virtuais, berrando para o vazio, depositando indignações onde nada germina.
Já que estamos em ano eleitoral, e mais uma vez precisamos depositar esperanças, fúrias nas urnas, fica um conselho que aquele médico de 2006 talvez aprovasse: fodam-se! Literalmente… guardem a paixão que possuem para as quatro paredes ou encontros que efetivamente toquem suas vidas, da forma que preferirem. Existem pessoas que podem, de fato, retribuir seu afeto. Invistam mais tempo com elas e deixem de encher o saco com cruzadas morais, ideológicas, partidárias, contra quem só, digamos, pensa diferente.
Conforme-se que sua gritaria não mudará o mundo. Trabalhe para alterar a realidade ao seu redor.
Trepem mais, briguem menos. No final das contas, de qualquer forma, algum político vai encontrar uma maneira de fazer isso com a sua vida. Então, escolha depositar toda energia em ambientes, pessoas e coisas que gerem prazer para você. Afinal, se somos campeões em sugar babies, que sejamos também em doçura – aquela que compartilhamos com quem está ao nosso lado, não a que desperdiçamos idolatrando quem nunca nos olhará de volta.
Tarciso Souza, jornalista e empresário



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