Às vezes nem sobra tempo para acordar de uma desbundante ressaca. O dia vai raiando, um novo ano que começa tão acelerado, confuso e bagunçado, que de certa forma não deixa riscar os planos e sonhos antes de despertar. O perfume, o cheiro de bebida doce-beira-mar, ainda está fresco na memória. O amargor de 2025, e da noite anterior, nem desapareceu e o corpo já implora por uma dose dupla de café preto. Com um gole só, de uma vez, a faísca parece ligar o organismo (vivo?), brindar o despertar, queimar a língua que já estava meio-morta e com gosto de guarda-chuva velho na boca. Quem tem pressa? Precisa é a energia desta bebida que parece que nasceu para ajudar a encarar cada um dos dias na sua vez.
Tudo bem que nestas primeiras manhãs de 2026 só acordei lá no finalzinho delas. Nunca poderia imaginar, porém, que seriam estas as horas que marcariam a história com a invasão e captura de um presidente/ ditador de um país. Ao menos Trump esperou até depois do Natal para anunciar a cinematográfica imagem de 47 segundos que pegou Maduro de pijamas.
Pense você, irritado com este papo político insano, como teria sido a confraternização da família se tudo isso tivesse acontecido antes do dia 24 de dezembro? Aposto que as Havaianas nem seriam canceladas. Mas, aquele tio ou primo “pela-saco”, que a cabeça foi abduzida por grupos no zap, vestiria a capa de especialista em geopolítica caribenha, com opinião formada sobre ditadores venezuelanos e todos fazendo um esforço para aturar e evitar engasgar com o papo sem nenhum conteúdo, além de achismo e teorias malucas.
Mas voltemos ao café. Porque isso é sério, para o humor de muitos, sagrada para outros tantos… Nas segundas-feiras, por exemplo, muitos são aqueles que dedicam como oferenda. Acho que precisamos mesmo de um bom gole de fé! Coa o combinado de água e grão com respeito, serve em uma caneca fumegante, acompanhada de uma vela e uma prece. Me ajuda no que vem! Agradeço o que fui! É o café que conecta, abre portais entre o visível e o invisível, entre o agora e o ancestral.
E o gosto da urgência que o nosso tempo exige é como uma xícara sem açúcar. Reforça a necessidade de seguir em frente, destrava as conversas difíceis, abre espaço para socializar as ideias e as pausas. Eu, sinceramente, acho curioso que no Brasil, um país com baixo índice de leitura, encerre o ano que passou contabilizando mais livros de colorir, religiosos e autoajuda como os mais vendidos. E adivinha? Entre os três primeiros está ele, “Café com Deus Pai 2025”, um livro de citações bíblicas para começar o dia.
Não deixa de ser irônico. Parece que estamos coletivamente muito cansados para pensar, assustados demais para sentir, exaustos e não queremos parar. Preferimos colorir cachorrinhos fofos e ler versículos prontos, com o ponto de vista de um desconhecido, do que enfrentar a complexidade de uma vida que exige pluralidade, interpretação e reflexão. Nada contra o escape, é evidente que todo mundo precisa de um respiro. Acontece que quando uma nação inteira só quer pintar dentro das linhas e seguir manuais de autoajuda, algo está gritando por socorro, não acha?
Talvez a resposta não esteja nestes best-sellers brasileiros do ano. É mais provável que o rumo da vida esteja nas esquinas e conversas que nunca tivemos. Ou na sabedoria que está nos terrenos e livros. O que é certo é que a energia para encarar 2026 de frente e vencê-lo só começa com uma boa dose de café expresso pela manhã.
Porque esta força que precisamos não vem só da cafeína. Está na coragem de olhar para dentro, na disposição de aprender com quem veio antes, com quem sabe que a vida não cabe em três passos simples para o sucesso. É preciso reconhecer que existe profundidade, contexto, sagrado nas coisas que não podem ser explicadas em um post de Instagram.
Este ano promete ser daquele jeito. Vai ter eleição… e Trump provando que é capaz de fazer qualquer coisa em menos de um minuto (inclusive derrubar governos), gente discutindo se o chinelo de borracha é comunista e muitos desafios políticos, econômicos e existenciais. Haja goles para dar conta de tudo! Até aceitamos começar com ressaca, mas tudo que não precisamos é continuar anestesiado durante os 365 dias que seguem, sem direção, amargo, ou sem sabor.
Café preto na caneca, olhos bem abertos e mãos à obra! Nem tanto para as manchetes, escândalos, polêmicas no grupo da família, mas para ter coragem para pintar fora das linhas, ler o que incomoda e respeitar o que não entendemos completamente. É como tomar café com os espíritos, literal ou metaforicamente, e perguntar: “e aí, vovô? Como é que a gente faz para viver melhor?”
Você, eu, cada um com sua caneca cheia, reunindo a energia necessária para viver melhor, escrever nossa própria história, desenhar novos caminhos com toda a confusão, beleza, significado que somos capazes. Está sentindo este cheirinho? É de ano-novo!
Tarciso Souza, jornalista e empresário



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