Senhor, fazei com que essa criança durma – Maternidade

sabrina_100Coluna: MATERNIDADE

por SABRINA HOFFMANN
jornalista e mãe

Se engana quem pensa que a maior missão dos pais é educar uma criança. Sabe essa história de dar exemplo, criar alguém que fará diferença no mundo, acreditar num futuro melhor e que a nova geração será capaz de transformar o planeta? Tudo balela.

materninade_coluna_20160928Na verdade o nosso maior desafio é chegar ao fim do dia, da semana e do mês com a check list zerada. E nem estou falando da pilha de boletos pagos em dia porque não quero tocar em um assunto utópico. Eu me refiro mesmo é à pilha de louça suja, o cesto de roupa que parece ter vida própria e os brinquedos que brotam em todo canto da casa.

Faz algum tempo que larguei mão de querer que a casa fique sempre limpa. Hoje o sonho é ter ela arrumada. Porque organização, minha gente, traz a doce ilusão de que nem está tão ruim assim.

A rotina da maioria dos pais já começa bem susse: despertador gritando no ouvindo e nos lembrando de mais um dia tranquilo, que envolve engolir o café da manhã em dois minutos, tomar banho em um e acordar uma criança que pode, potencialmente, virar sua inimiga mortal. O humor matinal desse pequeno ser vivo é imprevisível e pode variar de um sorriso com bom dia ou uma chinelada na cara.

O que se segue é uma corrida que envolve trânsito lento, deixar os filhos na escola – torcendo para que nenhum pai desprovido de bom senso e o mínimo de decência tenha ocupado duas vagas, te obrigando a dar a volta no quarteirão – e ir pro trabalho. Aliás, é nesse último ambiente, em que os sem filhos começam sua primeira missão do dia, que a maioria dos pais são incompreendidos. “Cansados na primeira hora da manhã?”

No fim do dia, a tranquilidade se resume a enfrentar – novamente – o trânsito caótico, reunir todo mundo no carro, passar no mercado, enfrentar o piti homérico por um kinder ovo que custa metade do seu salário. Chegar em casa, preparar a janta, o almoço do dia seguinte, lavar a roupa, arrumar a mochila, enfrentar um outro piti para entrar e também sair do banho.

Obviamente existe no meio disso tudo a hora de brincar, dar atenção, conversar, ajudar a fazer a lição de casa. Às vezes rola aquela passadinha lá no Ramiro, pra gastar um pouco da energia infinita contida em uma criança.

Aí vem a hora de dormir e a gente já inicia a oração com “Senhor, fazei com que essa criança durma”. Porque depois disso tem ainda a roupa pra passar, estender e guardar, e claro, aquela série da Netflix que você não consegue zerar nunca. Ou ainda o livro, com direito a cochilada na primeira página.

O fato é que, caso a criança durma, a gente já nem liga mais pra check list. Porque somos tomados por um sentimento, que beira o ridículo, de saudade dos momentos que acabaram de ocorrer.
Quem nunca ficou babando ao lado do berço depois que o filho dormiu, como se estivesse hipnotizado, que atire a primeira pedra. Porque é neste momento, quando desligamos de toda a correria diária, que olhamos à nossa volta e percebemos todo o amor envolvido nesse turbilhão de afazeres. E entendemos que a vida depois dos filhos não muda, ela é outra. E não a trocaríamos por nada.

Ter um filho, afinal de contas é acreditar. Na vida, no futuro, em um mundo melhor. E ignorar a check list, porque sanidade não se acha em qualquer esquina.

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