Opinião | Um pouco de tudo e as escolhas

Foto: "Carnaval, Circa 1940", de Emiliano Di Cavalcanti. Divulgação/Bolsa de Arte

“Às vezes eu me pergunto: será que eu fiz as escolhas certas?”

Oficialmente esta segunda-feira, dia 8 de janeiro, marca o brasileiro por uma série de fatores. O recesso chega ao fim para uma parte do país (outra metade volta depois do carnaval), lembraremos a força das instituições que salvaram o Brasil de um golpe de Estado e, também, termina a temporada que normalmente utilizamos para reflexões sobre a vida.

Longe de mim, este pensamento jeca de coaching. Mas, gosto de imaginar, como é relativamente fácil adivinhar que muitas das pessoas, em algum momento, por alguma razão, já questionaram se o caminho que optaram foi ou está na direção correta. Um bom número precisa, todos os dias, decidir tantas coisas, com tamanha urgência e importância que, suponho, seja algo comum sentir o peso da (das) dúvida.

Já dizia o velho sábio estoico Epicteto, é preciso aceitarmos que nem tudo responde aos nossos desejos. “Entre as coisas que existem, há aquelas subordinadas a nós e as não subordinadas a nós. As subordinadas a nós são o pensamento, o impulso, o desejo, o evitar e, em síntese, todas as operações que executamos. As não subordinadas a nós são o corpo, os bens, a reputação, os cargos e, em síntese, tudo aquilo que não são operações que executamos”, avaliava o filósofo.

Pode parecer bastante sem sentido minhas colocações. Talvez não apresentem um único propósito mesmo. No fim, elas refletem um pouco do meu momento. Em janeiro agora completo 10 anos como microempresário, com a Foster Pet Place. De muito longe o meu maior vínculo. Como toda atividade, desfrutei de momentos extremos. Alegrias e comemorações de um lado, dores do outro e incertezas que vou tropeçando.

Estes pensamentos, de balancear prós e contras, estar de um lado ou de outro do balcão já visitam minha cabeça a algum tempo. Curiosamente, em um instante de lazer, assistindo “Mussum, o filmis”, nesta semana, um diálogo chegou como um porrete, disparando gatilhos e revelando dores.

Mussum, interpretado lindamente por Aílton Graça, questiona a Dona Malvina, que ganha vida na arte de Neusa Borges: “às vezes eu me pergunto: será que eu fiz as escolhas certas?”. A mãe do trapalhão responde com uma calma e lucidez que parece ignorar a idade e o momento delicado de saúde que enfrenta. A senhorinha foi explicando com carinho acolhedor e a firmeza necessária: “eu lutei, mas eu lutei muito, para que os meus filhos tivessem o que nunca tive na vida: conforto, escolhas… Eu trabalhei muito. Fiz tudo que pediam de mim. Entenda que errar, acertar, faz parte da vida. E corrigir também!”

A simplicidade deste trechinho, de pouco mais de… sei lá, alguns 20 segundos, chegou em um canto pessoal. Calou o coração espelhando a própria vida. Minha mãe, confrontada com um questionamento como aquele do filme, repetiria alguma coisa muita semelhante ao que foi dito por Dona Malvina para o Mussum.
Estas pausas que fazemos, de tempos em tempos, esvaziam as certezas. Com os cabelos brancos chegando por aqui, já não sei se isso é tão bom! Para mim, por exemplo, volto às atividades, desta vez, com o interior cheio de esperanças e expectativas. O que é uma bosta, convenhamos! Um coração lotado delas se assemelha aos melhores perfumes borrifados ao vento. Um segundo e lá se vai a intensidade, o frescor, o charme, lentamente diminuindo, espalhando, enfraquecendo e, dentro de nós, volta a brotar um oco interior que consome tudo que encontrar.

Eu sei, vem aí mais uma segunda-feira. O problema desta, a primeira de trabalho do ano, é relembrar o que registrou o poeta e escritor Charles Bukowski, que “às
vezes, um homem tem que lutar tanto pela vida que não tem tempo para vivê-la.”

De todas as escolhas que reservei para 2024, aproveitar melhor a vida, os momentos, é a mais acertada alteração que desejo incluir em meu caminho. Seja o que for, a direção que o “homem” apontar… que tenhamos todos um bom ano!

Tarciso Souza, jornalista e empresário

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