Opinião: sobre pães, brioches e mangas

A Revolução Francesa é realmente um marco na História do Ocidente por representar o fim do sistema absolutista e dos privilégios da nobreza. É verdade, em termos, porque persistem formas um pouco mais sutis de absolutismo (bem como nas mentes e sonhos ditatoriais de alguns) e além disso os privilégios remanescem não mais por “direito divino”, mas por culto à uma lógica excludente e favorável a uma “elite”. Não é à toa que os 26 cidadãos mais ricos do mundo possuem patrimônio igual ao da metade da população (3,8 milhões de pessoas), conforme relatório da OXFAM relativo a dados de 2018.

Assim embora tenha tido significado histórico e influenciado movimentos mundo afora, o episódio francês, por outro lado, ensejou relatos pitorescos porém sem comprovação da sua veracidade e autoria. Um desses episódios pode ser resumido à famosa frase “se não tem pão que comam brioches” (pão de origem francesa, feito com alto teor de manteiga e ovos) atribuída a Maria Antonieta e que até hoje simboliza a futilidade diante dos que passam fome.

Na mesma perspectiva, que trata a fome de outrem com leviandade, a Ministra Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, “abasteceu” o anedotário com a afirmação de que “nós não passamos muita fome porque tem mangas nas nossas cidades”. Acredito que ela pretendia mostrar que em outros países a fome é maior, mas de qualquer forma a sua fala representou desrespeito aos 5 milhões de brasileiros famintos (ONU – 2019). A fome é coisa séria, a fome mata.

Aliás, não só em relação à fome e demais agruras das gentes mas também em relação a diversos temas, a equipe do Bolsonaro e outros tantos que o apoiam nos três Poderes da República e afins parecem viver numa bolha que os mantém distantes da realidade. Vivem numa dimensão paralela e demonstram acreditar nas próprias miragens. Tendem a demonizar a oposição, não aceitam o contraditório e costumam responder com truculência. Há, porém, uma exceção – o Paulo Guedes. Esse sabe exatamente o que quer e cumpre à risca o que os endinheirados que o colocaram no poder lhe determinaram, embora não seja menos agressivo, quando contrariado.

A “mensagem” de que quem não tem pão deve comer brioches ou saciar a fome com mangas tem o propósito de não atrapalhar as políticas “austericidas” da cartilha do “Consenso de Washington” (FMI, Banco Mundial e Tesouro dos EUA) e dos “Chicago’s Boys” (aquele malfadado grupo de economistas responsáveis pelas atrocidades sociais do governo Pinochet – Paulo Guedes entre eles) agora em pleno curso no Brasil de Bolsonaro.

O paradoxo é que, quando Deputado inexpressivo, Bolsonaro criticava as privatizações e outras tantas medidas neoliberais as quais agora aplaude e implementa com fervor. Creio que o faz porque não dispõe de tirocínio suficiente para inspirar e liderar um verdadeiro projeto de Nação.

Contudo a realidade é dura e mais cruel ainda quando a fome e o desalento tornam a experiência humana insuportável, levando o povo, à semelhança dos franceses no século XVIII, a perder o medo e partir para o confronto.

Os chilenos e os argentinos, uns pela revolta outros pelo voto, estão à frente da “Queda da Bastilha” contemporânea. Se terá o alcance do original francês não se sabe, mas tem muita coisa acontecendo.

No Brasil a restrição a direitos trabalhistas, o corte nas políticas de assistência e previdência sociais, de saúde, de educação, o pouco caso com as minorias e o despreparo ou desinteresse com a questão ambiental vêm recebendo fortes questionamentos, mas sabem como é, fomos os últimos a abolir a escravidão e até hoje sofremos da síndrome da Casa Grande e Senzala. De todo modo há muita turbulência no ar que indicando que a jornada governista está cada vez mais complicada.

Ah! Sim! E tem o Queiroz, as milícias, os fake News da campanha e outras traquinagens da família, estripulias que podem catalisar a revolta.

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