Opinião | Sobre o superendividamento da população que agora tomou conta da agenda do Governo

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O Brasil contemporâneo enfrenta um ambiente social marcado por tensões estruturais que se retroalimentam e produzem efeitos duradouros sobre a vida cotidiana e sobre a própria estabilidade democrática. A renda historicamente baixa, somada à alta informalidade com ganhos líquidos reduzidos, limita a mobilidade social e reforça desigualdades persistentes.

Os programas de transferência de renda, embora fundamentais para mitigar a pobreza extrema e garantir mínimos sociais, já não se mostram suficientes para romper o círculo vicioso da pobreza. Eles funcionam como paliativos, mas não atacam as raízes estruturais da desigualdade, como a concentração de riqueza e a precarização do trabalho. Nesse sentido, Pierre Bourdieu já alertava para a reprodução das desigualdades através das estruturas sociais e institucionais, enquanto Robert Castel enfatizava a vulnerabilidade crescente dos indivíduos em sociedades marcadas pela insegurança laboral.

A financeirização da economia, como analisa Thomas Piketty, intensifica a concentração de riqueza e amplia a distância entre classes sociais, criando um fosso difícil de transpor. Paralelamente, a lógica das redes sociais projeta uma felicidade ilusória, baseada em comparações constantes e em padrões de consumo muitas vezes inalcançáveis. Zygmunt Bauman descreve esse fenômeno como parte da “modernidade líquida”, em que vínculos e expectativas se tornam frágeis, gerando insegurança e ansiedade.

O desejo de acessar padrões de consumo inalcançáveis diante da sua renda, mas constantemente estimulados pelas redes sociais, e a ausência de educação financeira sólida expõem grande parte da população ao crédito fácil, porém caro, resultando em endividamento crônico. Nesse contexto, a busca por soluções rápidas e milagrosas encontra terreno fértil nos jogos de azar e nas apostas digitais (bets), que funcionam como válvula de escape diante da frustração e da desesperança.

Esse quadro se agrava ainda mais diante das altas taxas de juros praticadas no Brasil. A Taxa Selic definida pelo Banco Central, apesar da inflação baixa, vem rondando a casa dos 15% ao ano, enquanto muitas instituições financeiras chegam a cobrar juros superiores a 10% ao mês. Essas taxas, justificadas como forma de cobrir inadimplência, são também resultado da irresponsabilidade na concessão de crédito. Na prática, funcionam como um mecanismo regressivo e brutal de drenagem de renda da população mais pobre para os já muito ricos, privilegiando o rentismo e agravando ainda mais a desigualdade.

É justamente por isso que o superendividamento das famílias passou a ocupar lugar central na agenda do governo Lula, que discute a criação de fundos garantidores e linhas de crédito mais acessíveis para renegociação de dívidas.

O fato é que o problema do superendividamento que hoje mobiliza o governo Lula pode ser apenas a ponta do iceberg de questões estruturais muito mais complexas.

Essa constatação nos leva a perceber que, embora políticas emergenciais possam aliviar o orçamento imediato das famílias, elas não são capazes de enfrentar as causas profundas da desigualdade. Referências como aumento do PIB, inflação baixa, queda do desemprego ou mesmo crescimento da renda média (ainda insuficiente) já não traduzem o ambiente social de um país. Especialmente após a pandemia, torna-se urgente a introdução de indicadores que mensurem o estado de bem-estar e a esperança em relação ao futuro.

Os indicadores tradicionais, embora relevantes, não bastam. O uso exclusivo deles por governantes já não os municia suficientemente para compreender o contexto social, levando a diagnósticos equivocados. A célebre frase — “É a economia, estúpido” — criada por James Carville e repetida por Bill Clinton, já não é suficiente para explicar, por exemplo, os resultados eleitorais em sociedades atravessadas por frustração, desesperança e desconfiança institucional.

É nesse contexto que indicadores alternativos, como o Relatório Mundial da Felicidade e o Índice para uma Vida Melhor da OCDE, tornam-se essenciais. Eles ampliam a análise para além da economia, incorporando dimensões de bem-estar, confiança social e esperança no futuro. Sem tais métricas, governantes correm o risco de interpretar de forma limitada o ambiente social, repetindo diagnósticos equivocados e subestimando o impacto da desesperança coletiva sobre a democracia.

A combinação desses fatores – precariedade econômica, insuficiência das políticas de transferência de renda, ilusões midiáticas, endividamento e fuga para o risco – compõe um quadro de desalento coletivo e desesperança no futuro. Diversos sociólogos, economistas e psicólogos sociais alertam que esse ambiente não apenas compromete o bem-estar individual, mas também coloca em risco a própria democracia liberal, construída no Ocidente sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. A erosão da confiança nas instituições, somada à sensação de impotência social, abre espaço para discursos autoritários e para a fragilização dos valores democráticos.

João Krein, graduado em Ciências Sociais e Mestre em Gestão de Políticas Públicas

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