Opinião | Radar de velocidade média: solução urgente

Imagem: Google Maps/Reprodução via ND

Depois de uma entrevista que gerou várias interpretações sobre a instalação e o funcionamento da fiscalização por velocidade média em veículos automotores em Blumenau, novamente se voltou a discutir sobre o assunto na cidade. Que bom.

Importante lembrar que, legalmente, esse tipo de fiscalização está em fase de teste em vários locais do Brasil, mas ainda carece de homologação pelo Inmetro e de uma resolução que possa regulamentar especificamente esse tipo de fiscalização. Ou seja, qualquer cenário discutido neste momento é meramente opinativo sobre o que pode acontecer mais adiante, mas atualmente nada se tem como certeza de como irão funcionar.

Primeiro que, independentemente das interpretações, sempre acho salutares essas discussões que, volta e meia, passam a circular com maior relevância em Blumenau. Sempre que acontece qualquer assunto nesse sentido, as pessoas começam a prestar mais atenção nas velocidades, condutores começam a ter soluções para diminuição de sinistros e todos conseguem apontar para o problema da chamada indústria da multa.

Soluções essas que partem sempre da ideia de que precisamos de velocidades padrão. Ou seja, na cabeça de alguns, a cidade deveria ter a mesma velocidade em todas as vias, independentemente das características de cada uma delas, porque prestar atenção na velocidade, se posso me acomodar na direção e dirigir distraidamente em todas as vias. Já que não quero me adaptar as vias, elas que se adaptem a mim.

Incrivelmente, essas mesmas pessoas que acreditam que fiscalização de velocidade é uma arma para a indústria da multa são as que, desde sempre, geram os maiores índices de solicitações na SMTT e na SEPLAN de pedidos para redutores de velocidade. Novamente frisando: querem redutores na frente da sua casa, na sua empresa, na escola do seu filho, mas ninguém quer respeitar a velocidade.

A estatística, a física, a matemática e todos os indicadores demonstram que velocidade mata. Centros urbanos do mundo todo buscam redução de velocidade, constroem cada vez mais cidades para pessoas e menos para carros, e aqui ainda continuamos batendo na tecla de construir cidades para automóveis e dar preferência para eles. É sempre com a concepção de que podemos integrar pessoas e veículos de forma segura, independentemente da velocidade, como se pudéssemos contrariar regras, princípios e tudo o que tem dado certo em outros lugares no trânsito. Talvez tudo esteja errado e só nós estejamos certos, mesmo que os números demonstrem o contrário.

Uma hora a solução é enfiar lombada física, faixa elevada, radar com display gigante para facilitar a percepção do condutor. Mas aumentar a atenção, melhorar o respeito às regras, dirigir de forma defensiva, pensar no próximo nunca aparecem nessas discussões. Novamente caminhamos para corrigir o problema a partir dos outros, nunca a partir de nós.

Em um atropelamento a 30 km/h ou menos, as chances de sobrevivência de um pedestre são muito maiores. Quando essa velocidade sobe para 50 km/h, o risco de morte cresce drasticamente. A 60 km/h, a probabilidade de fatalidade pode chegar a 98%.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, um aumento de apenas 5% na velocidade média do tráfego pode resultar em até 20% mais mortes no trânsito.

No relatório Managing Speed, a própria OMS aponta que a velocidade excessiva ou inadequada está presente em uma a cada três mortes no trânsito no mundo. Ao mesmo tempo, entre 40% e 50% dos motoristas admitem ultrapassar os limites de velocidade.

Estamos falando de um cenário em que cerca de 1,25 milhão de pessoas morrem todos os anos em vias de tráfego e queremos discutir velocidade. 

No caminho contrário, sempre fica a pergunta: qual é a real vantagem de aumentar a velocidade nas vias urbanas? Que benefício concreto isso traz? Ganhar alguns segundos no trajeto justifica aumentar o risco para todos? No fim, a dúvida permanece simples: qual é, de fato, o ganho? 

Para o condutor que dirige corretamente, ter ou não ter ou até ampliar os mecanismos de fiscalização de velocidade não muda absolutamente nada. Quem respeita os limites não tem com o que se preocupar. A preocupação é apenas de quem insiste em desrespeitá-los. 

No fim, a discussão sobre velocidade no trânsito não deveria ser sobre punição ou “indústria da multa”, mas sobre responsabilidade. A física, as estatísticas e a experiência das cidades que deram certo já mostraram o caminho. Ignorar isso é insistir em uma escolha que, todos os anos, continua custando vidas. 

Com trânsito não se brinca.

Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito

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