Opinião | Quando Blumenau deixou de votar por Blumenau?

Foto: Daniel Zimmermann

A cidade conhecida pelo pragmatismo está sendo seduzida por uma guerra ideológica que pode ter pouco a ver com os interesses de quem vive aqui.

Blumenau sempre teve uma relação muito particular com a política. Durante décadas, o eleitor daqui foi conhecido pelo pragmatismo. Podia votar à direita ou à esquerda, ser mais conservador ou mais progressista, mas havia uma prioridade que parecia estar acima das disputas: primeiro Blumenau. Depois, Santa Catarina.

Não era falta de convicção. Era a compreensão de que ideologia não pode substituir interesse público.
Hoje, alguma coisa parece ter mudado.

Parte do eleitorado passou a olhar menos para quem tem compromisso concreto com a cidade e mais para quem representa determinada identidade política. E isso abriu espaço para candidaturas de fora, algumas sem vínculo efetivo com Blumenau ou com Santa Catarina, mas que conseguem conquistar apoio porque aprenderam a falar a linguagem do radicalismo político.

É o chamado canto da sereia.

O candidato não precisa necessariamente conhecer a realidade local. Precisa saber quais palavras despertam indignação, medo ou paixão. Precisa escolher um inimigo e repetir, todos os dias, que está lutando contra ele.

E funciona.

O problema é que Blumenau não vive de guerra cultural.

Temos problemas concretos de mobilidade, saúde, segurança, educação, habitação, infraestrutura, enchentes, turismo e desenvolvimento econômico. Santa Catarina também precisa de representantes capazes de defender seus interesses e buscar soluções onde elas precisam ser construídas.

Nenhuma dessas questões será resolvida porque alguém venceu uma discussão nas redes sociais.
Engajamento não é representação. Indignação não é política pública. E radicalismo não é projeto de cidade.

Talvez esteja aí uma das grandes mudanças do nosso comportamento político.
Começamos a confundir fidelidade ideológica com compromisso com a cidade.

Se o político é “do nosso lado”, passamos a tolerar sua ausência. Se fala aquilo que queremos ouvir, aceitamos que desconheça nossos problemas. Se ataca os nossos adversários, pouco importa se entrega resultados.

Isso é perigoso.

Um representante eleito não recebe um mandato para ser comentarista político de rede social. Recebe para representar interesses, buscar recursos, construir soluções, fiscalizar, negociar e defender sua região.

Blumenau já soube fazer isso.

Já tivemos políticos de diferentes campos ideológicos que entendiam que, em determinados momentos, o interesse da cidade precisava falar mais alto que a disputa partidária.
Não precisamos abandonar nossas convicções.

Precisamos apenas recuperar uma hierarquia: a ideologia pode orientar o voto, mas não deveria cegar o eleitor para os interesses da própria cidade.
E aqui está a pergunta que talvez incomode:

Vale a pena prejudicar Blumenau ou Santa Catarina para manter fidelidade a uma disputa ideológica nacional que pouco tem a ver com os problemas que enfrentamos todos os dias?

Na urna, ninguém vota pelo grupo de WhatsApp.

Não vota pelo influencer.

Não vota pela torcida.

Não vota para agradar o vizinho.

Vota sozinho.

É você, sua consciência e a responsabilidade de escolher quem receberá um mandato para falar em seu nome.
Talvez esteja na hora de Blumenau recuperar seu velho bairrismo.
Não aquele bairrismo provinciano, fechado e contra os outros.

Mas o bairrismo inteligente: aquele que sabe receber quem vem de fora, dialogar com todos, mas não abre mão de perguntar primeiro:

“E o que você vai fazer por Blumenau?”

Porque podemos continuar brigando para saber quem está certo na guerra ideológica.
Ou podemos voltar a perguntar quem está disposto a trabalhar pela nossa cidade.
Blumenau não precisa de políticos que apenas saibam dizer de que lado estão.
Precisa de representantes que saibam dizer o que farão por ela.

Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos

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