Opinião | O conservadorismo relativizado pela história – parte II

Imagem: reprodução

No artigo anterior e homônimo, procurei relativizar a imagem politicamente “conservadora” atribuída a Santa Catarina. Atualmente, tudo parece reduzido ao caráter eleitoral, a pirotecnias políticas e consequentes impressões manifestas nas plataformas virtuais. A bem da verdade, é preciso amplificar a noção de conservadorismo e compreendê-lo na sua perspectiva histórica. Assim, é possível compreender como uma sociedade conservadora pode também ser liberal e diversa, chocando paradoxalmente o senso comum das plataformas sociais.

Um pouco de história: em Blumenau e Florianópolis, ainda no século XIX, o ambiente político não era homogêneo. Havia uma tensão entre defensores da monarquia e adeptos às ideias republicanas e liberais. Em Florianópolis, essa disputa se manifestava nos espaços institucionais e na imprensa. Em Blumenau, embora a colonização alemã, italiana, escandinava e eslava leve os desavisados a impressões antiliberais e excludentes, o debate político sempre foi denso nessa comunidade certamente conservadora, mas não estúpida.  

Bom: quais cidades não eram conservadoras entre o fim do século XIX e o início do século XX no País? São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte? As ideias circulavam. Não obstante, quantas cidades pequenas, ainda vilas, como Blumenau e Florianópolis, geravam ampla circulação de ideias políticas e divergentes nessa época. A quem possa interessar, sugiro o romance histórico “O Espírito de uma época”, de Christina Elisa Baumgarten, que conta a saga de seu avô, Hermann Baumgarten, pioneiro do ramo gráfico. 

Republicano e liberal, Baumgarten fundou um jornal, pegou em armas contra a monarquia, foi preso, como outros, depois anistiado com a Proclamação da República. Um dos fatos interessantes da história política de Blumenau é que esse antimonarquista foi amigo de José Bonifácio de Souza, que Christina descreve como médico de origem baiana e mulato. O mais interessante: foi prefeito de Blumenau, eleito em 1903 por um conselho de cinquenta blumenauenses em que, certamente, a maioria falava melhor o alemão do que o português. 

Em 1934, a Professora Antonieta de Barros projetou Santa Catarina no mapa político do Brasil, desde Florianópolis: não apenas como uma das primeiras mulheres a chegar a um parlamento, mas como a primeira mulher negra a exercer um mandato legislativo estadual no País. Tudo bem, poderia ter acontecido em muitos outros estados brasileiros, com muito mais probabilidades. Mas aconteceu em Santa Catarina, um estado tanto enaltecido quanto execrado por seu suposto “ultraconservadorismo” e outros “ismos” indizíveis aqui. 

Dando um salto temporal: veja-se as greves do setor têxtil na “ultraconservadora” Blumenau, nos anos 1980; elas constituíram um dos principais ciclos de mobilização operária no Sul do Brasil, contribuindo para a revitalização do sindicalismo. No contexto de Santa Catarina, foi um movimento central, que levou dezenas de milhares de operários às ruas. Foi o movimento trabalhista mais visível e estruturado do estado na época, mas longe de ser o único, a lembrar de um ciclo de greves que englobou Brusque, Jaraguá, Joinville e por aí vai. 

É sociologicamente revelador que mobilizações grevistas expressivas tenham emergido nessas cidades conservadoras (pra usar o termo oportuno aqui). Essas greves se desenvolveram em contextos historicamente estruturados por um etos de produtividade e disciplina burocrática, de matriz weberiana. Historicamente, essas cidades se constituíram muito mais pela disciplina laboral e pela racionalidade organizacional do que pelas tradições políticas centradas no antagonismo de classes, de matriz marxista.

Então, esses e outros tantos episódios sugerem que a realidade é mais complexa do que está sugerida nas plataformas das redes sociais e a história é testemunha disso. O conservadorismo catarinense já foi bem mais liberal.

Mas, então, por que as coisas mudaram tanto? Por que cidades como Blumenau, Chapecó, Concórdia, Joinville, Brusque, Itajaí, Criciúma e mais umas quarenta, que já elegeram prefeitos do Partido dos Trabalhadores, que ajudaram a eleger Lula no passado, hoje constituem um perfil eleitoral completamente oposto? Pretendo responder a isso em artigo subsequente.

 

Walter Marcos Knaesel Birkner, sociólogo / Canal no Youtube: SC Think Tank

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*