Opinião | O conservadorismo relativizado pela história – parte I

Imagem gerada com IA

Santa Catarina é apontada como um estado de orientação política conservadora e, groso modo, não se conteste. Mas, sem alguma checagem, essa afirmação produz entendimento insuficiente, somado às impressões geradas nas redes sociais. Nesse sentido, lembrar fatos históricos pode reposicionar impressões epidérmicas sobre o estado e conferir melhor entendimento do que é ser conservador, excluindo didaticamente este conceito da conflagração entre direita e esquerda. A realidade é mais complexa e a história é testemunha.

Há semanas, um amigo, cientista político da UFPR, me enviou um vídeo do programa Opinião Litoral, da TV Cultura Litoral, de Santos-SP. Dois comentaristas, o advogado Roberto Mohamed e o jornalista Carlos Zaidã (também comentarista na Itaberá-FM, Blumenau), relativizaram essa fama catarinense, o que me pareceu coerente. Primeiramente, observaram que em estados como SP, PR, RS, RJ, até mesmo MG, entre outros ainda mais obviamente, o conservadorismo é igualmente notável. 

É uma onda que demonstra o desgaste do que convencionamos chamar “progressismo”. O progressismo produziu redistribuição de renda, expansão educacional e políticas de reconhecimento. Por outro lado, desorganizou a macroeconomia, distorceu o mercado e fomentou a polarização social: razões do desgaste, perdeu o controle, o que merece análise específica.

Em segundo lugar – e mais importante -, os debatedores chamaram à atenção à falta de memória da opinião pública. Os comentaristas lembraram que SC, RS e PR foram fundamentais no movimento que enfraqueceu o regime militar de 21 anos de exceção. Lembraram da “novembrada”, como ficou conhecida a visita do ex-presidente Figueiredo, em 1979, em Florianópolis. Foi afrontado por uma multidão descontente que reclamava da inflação e do desemprego, entre outras coisas. Houve mais de mil prisões naquele episódio – depois, o perdão geral: era mesmo o fim.

Por extensão, o jornalista Carlos Zaidã ainda lembrou que os três estados do Sul foram fundamentais, fora e dentro dos quarteis, para impedir o golpe interno que o Gal. Sylvio Frota quis dar, a fim de barrar a abertura política. O regime militar havia perdido o controle inflacionário, interveio na economia com resultados ineficazes, entre outros problemas e, por fim, dava mostras de encerramento de um ciclo conservador.

O conservadorismo do regime militar promoveu planejamento estatal, industrialização pesada e crescimento econômico a taxas “asiáticas”. Mas deixou uma herança de autoritarismo, violação de direitos e uma crise econômica que detonou inclusive o apoio empresarial, o que merece outra análise específica.

Há outras lembranças que pretendo apontar em artigo subsequente. São fatos históricos que ajudam a relativizar a imagem superficial que se construiu sobre Santa Catarina nos últimos anos. O objetivo aqui não é desqualificar posições e opiniões políticas que cada um ou cada grupo têm de si. Minha intenção é demonstrar que a visão que uma parcela da sociedade, catarinense ou não, tem sobre o conservadorismo, desconhece ou não lembra de fatos históricos que relativizam o pré-conceito atual, que não é sem sentido, mas exagerado.

Nesse sentido, procurarei demonstrar que, em Blumenau e Florianópolis, já no século XIX, havia uma disputa entre monarquistas e republicanos liberais que originou uma cultura política dinâmica ao longo da história. Blumenau já teve um prefeito baiano e mulato há mais de um século. Farei menção às eleições municipais durante o regime militar e pós-regime. Investigarei sobre a greve dos têxteis na década de 1980. Por fim, vale lembrar, em 1996, a “conservadora” Blumenau foi a primeira cidade grande de Santa Catarina que elegeu e reelegeu um prefeito pelo Partido dos Trabalhadores – PT.

Isso é capaz de demonstrar que, ao contrário do que muitos pensam, o conservadorismo não é um fenômeno estático, ao contrário, aberto a experiências. Não obstante, isso também pode demonstrar que, se o eleitor altera suas escolhas eleitorais, não é porque ele mudou suas posições essenciais, mas porque os partidos mudam e decepcionam.

No fim dessa série de artigos, pretendo reforçar essa ideia de que 1) o conservadorismo autêntico não é algo estático. Além disso, pretendo lembrar ao menos mais três aspectos comuns ao conservadorismo e ignorados por uma parcela da sociedade, quais sejam: 2) um conservador não é, em geral, um reacionário, embora não despreze a tradição; 3) propriedade privada é um valor sagrado comum a empregador e trabalhador; e 4) é preso à sua terra e desconfia de forasteiros.

Walter Marcos Knaesel Birkner, Sociólogo

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