Opinião | Diesel caro não é surpresa, é consequência

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A discussão recente sobre o risco de escassez de diesel no Brasil tem sido conduzida, mais uma vez, de forma equivocada. O debate público insiste em tratar o problema como conjuntural, quando, na verdade, ele é estrutural.

O ponto de partida precisa ser claro: o Brasil não é autossuficiente em diesel.

Embora produza petróleo bruto em volume relevante, o país depende da importação de aproximadamente 25% a 30% do diesel que consome. Isso ocorre por uma razão simples: falta capacidade de refino.

Essa limitação não surgiu agora. É resultado de décadas de decisões mal conduzidas, e, no caso recente, agravada por desvios de governança que culminaram em escândalos de corrupção de grande escala, como os revelados pela Operação Lava Jato no chamado Petrolão, ocorrido durante os governos de Lula (2003–2010) e Dilma (2011–2014).

Historicamente, a maior parte da infraestrutura de refino no Brasil foi construída entre as décadas de 1960 e 1980, quando havia uma diretriz clara de expansão energética. Desde então, o país pouco avançou em termos estruturais. 

Projetos que deveriam ampliar a capacidade de refino acabaram se transformando em símbolos de má gestão e corrupção. O Comperj, anunciado em 2006, jamais se concretizou como refinaria e gerou perdas estimadas em mais de R$ 40 bilhões, segundo órgãos de controle. A própria Operação Lava Jato revelou esquemas de corrupção associados ao empreendimento. Já a refinaria Abreu e Lima, concebida como projeto estratégico, teve seu custo multiplicado várias vezes, foi envolvida em cartel de empreiteiras e até hoje não foi concluída conforme o plano original. O que deveria ser solução virou problema, e o país segue pagando a conta na bomba.

O resultado é conhecido: o Brasil exporta petróleo bruto e importa diesel refinado, pagando mais caro por isso. Esse quadro expõe um problema ainda mais profundo, a persistência de uma visão ultrapassada sobre o setor energético.

A ideia de que “o petróleo é nosso” e de que uma única empresa estatal deve concentrar praticamente toda a cadeia de refino não encontra respaldo na realidade econômica contemporânea. Trata-se de uma herança de um modelo dos anos 1950, associado ao nacional-desenvolvimentismo da era Vargas, que não dialoga com um mercado globalizado e competitivo.

Como já destacava Friedrich Hayek, economias complexas não funcionam por centralização de decisões, mas por coordenação descentralizada via preços e concorrência. Quando esse mecanismo é substituído por estruturas concentradas, a tendência é a ineficiência.

Milton Friedman, por sua vez, observava que ambientes com maior concorrência tendem a gerar melhor alocação de recursos e maior eficiência produtiva. O setor de refino no Brasil caminha na direção oposta.

A concentração reduz incentivos ao investimento, limita a entrada de novos agentes e compromete a segurança energética.

Ainda assim, diante de um cenário adverso, o governo insiste em buscar culpados externos, ora em decisões passadas, ora no mercado internacional, ora em agentes privados. Trata-se de uma narrativa conveniente, mas que ignora o essencial.

O diesel é uma commodity global. É cotado em dólar, transportado em cadeias internacionais e influenciado por fatores geopolíticos. Não há política pública capaz de desconectar o Brasil dessa realidade sem gerar distorções.

A tentativa de “abrasileirar” preços ignora essa lógica elementar. Quando se tenta segurar preços artificialmente, o efeito é conhecido: desorganização do mercado, retração de importadores e risco de desabastecimento.

O problema, portanto, não está na política de preços em si, nem na distribuição. Está na base da estrutura.

Se o Brasil tivesse ampliado sua capacidade de refino ao longo das últimas décadas, com abertura à concorrência, segurança regulatória e atração de investimentos privados, o cenário seria outro. Haveria maior oferta interna, mais previsibilidade e menor vulnerabilidade a choques externos.

Em termos simples, menos dependência, mais eficiência.

O que se observa hoje é o oposto. O país permanece preso a um modelo concentrado, com baixa capacidade de resposta e elevada exposição ao mercado internacional — e ainda perde tempo em disputas narrativas que pouco contribuem para resolver o problema.

O resultado aparece na bomba e no custo do frete, pressionando toda a economia.

Diesel caro não é surpresa. É consequência.

Sem enfrentar esse gargalo estrutural, com mais concorrência, menos concentração e maior racionalidade econômica, o Brasil continuará refém de um problema que ajudou a criar.

E, como de costume, a conta seguirá sendo paga pela sociedade.

Jorge Amaro Bastos Alves, economista

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