Opinião | Blumenau celebra cerveja, mas cala o samba: preconceito ou medo da própria diversidade?

Imagem gerada com IA

O Carnaval não é apenas festa. É economia pesada, identidade cultural e geração de renda real. Só no Rio de Janeiro, a estimativa oficial para 2025 aponta movimentação de cerca de R$ 5,7 bilhões durante o período carnavalesco. São bilhões girando em poucos dias, aquecendo hotelaria, bares, restaurantes, transporte, comércio, ambulantes e toda uma cadeia produtiva que vai do costureiro ao técnico de som.

Não é exagero dizer que o Carnaval é uma engrenagem econômica. Ele gera empregos temporários, ativa pequenos negócios e projeta o Brasil internacionalmente. Turistas vêm de fora, ocupam hotéis, consomem na cidade e deixam dinheiro circulando na economia local. Países inteiros reconhecem o Carnaval brasileiro como ativo cultural e estratégico.

Mas enquanto o Brasil entende isso, Blumenau parece preferir fingir que o Carnaval não existe.

A cidade que construiu uma das maiores festas de tradição europeia do país sabe, melhor do que ninguém, como transformar cultura em receita. Sabe organizar evento, captar patrocinador, mobilizar público e estruturar calendário turístico. O problema não é falta de competência. É escolha.

Blumenau tem escola de samba. Tem comunidade. Tem público. A Acadêmicos do Salto do Norte — responsável por manter viva a tradição carnavalesca local — já colocou milhares de pessoas na rua quando houve apoio. Quando existe estrutura, o povo aparece. Simples assim.

Mesmo assim, o que se vê é abandono. Falta de recursos. Falta de prioridade. Falta de decisão política.

Não é ausência de foliões. Não é desinteresse popular. É falta de reconhecimento.

Quando uma cidade decide quais manifestações culturais merecem palco e quais devem sobreviver quase sozinhas, ela está dizendo muito sobre seu modelo de identidade. Cultura não pode ser seletiva. Ou se entende que ela é diversa, plural e popular, ou ela vira vitrine de uma tradição só.

E aqui está o ponto central: Carnaval também gera renda. Também ativa comércio. Também movimenta serviços. Também fortalece bairro, comunidade e pertencimento. Não apoiar o Carnaval não é apenas uma posição cultural — é um erro econômico.

Se bilhões são movimentados no país inteiro, por que Blumenau não pode ao menos estruturar um Carnaval digno para sua própria comunidade? Por que uma escola de samba precisa lutar para existir enquanto outras festas recebem investimento robusto?

O samba não é ameaça à identidade da cidade. Ele é parte do Brasil que também está aqui. Ignorá-lo não preserva tradição nenhuma. Apenas reforça preconceito e reduz oportunidade.

Blumenau sabe fazer festa. A pergunta é: por que escolhe não fazer Carnaval?

Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos

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