Existe um termômetro eleitoral que ajuda a antecipar a tendência do resultado para presidente da República. Já escrevi aqui mesmo, no Informe Blumenau, em 2022, que combustíveis elegem e derrubam presidentes. O preço subiu? A continuidade do time do chefe do executivo fica prejudicada. A gasolina está em baixa? Comemore bancada governista… até hoje ninguém perdeu uma disputa eleitoral com este alívio no tanque.
Deixe-me te contar uma história. O ano era 2015, e em cada semáforo que você parava, olhava para o lado e avistava um carro com um adesivo estampando a imagem de uma mulher, de pernas abertas, ou com a boca sendo “abastecida”. Pornográfico, misógino, viral. A gasolina estava abaixo dos R$ 3,00 o litro. A presidenta Dilma segurava o preço à força, existiam ferramentas legais para isso. A estatal Petrobras sangrava para este fim, pagando com a própria pele a conta política dessa contenção e os “protestos” se espalhavam por todo o país. O ódio também.
A petista foi apeada do poder antes do termino do mandato. Michel Temer assumiu mudando a política de preços dos combustíveis. Com a implantação do Preço de Paridade de Importação (PPI), o valor cobrado na bomba dos postos de todo Brasil disparou. Até 2016, quando o controle da cadeia de petróleo brasileiro era quase que uma exclusividade da União, o preço médio histórico da gasolina flutuava entre R$ 1,60 e R$ 2,40. O desmonte desta política, naquele ano, foi o pontapé inicial para que todos os consumidores precisem conviver com um “novo normal”, bem mais salgado, na hora de abastecer os seus veículos.
Diria até que o povo gostou de desembolsar uma grana a mais. Veja, em 2022, a gasolina registrou o recorde histórico de maior valor nominal da série, passando de R$ 7,00 em boa parte do país. Diferente da ocasião que levou tantos a atacarem a imagem de uma presidente que segurava na marra o preço, o ano ficou marcado por celebrações, motociatas de dezenas de milhares de pessoas que saudavam o governante de ocasião. Nos grupos de WhatsApp, quase como uma distopia, juravam que a culpa era, na verdade, “da Petrobras petista”, a mesma empresa que estava sob controle de gestores alinhados ao governo celebrado a mais de meia década. Nenhum adesivo ou protesto, só buzina, alegria e bandeira verde e amarela tremulando.
A memória seletiva, como sempre, trabalha em tempo integral. Desde 2023, a Petrobras fez a sua parte. Abandonou o PPI, estabeleceu uma política de Estado para combustíveis fósseis mais alinhada aos interesses nacionais e a estatal voltou a investir pesado para evoluir como uma das maiores empresas do planeta. Com isso, o preço da gasolina nas refinarias foi despencando, e só não chegou no tanque do seu veículo porque o caminho foi destruído.
Durante os governos Temer e Bolsonaro, o desinvestimento foi metódico e quase didático: a BR Distribuidora, o braço que levava o combustível da Petrobras até o consumidor, foi privatizada. A empresa perdeu o acesso à ponta final da cadeia. Virou atacadista num mercado que não controla mais. Quando baixa o preço na refinaria, distribuidoras privadas alargam as margens, fazendo desaparecer o desconto de uma das riquezas do país que, agora, sofre para ser dividida com os brasileiros.
Existe uma expressão popular, surgida na idade média, que certamente já chegou até você mais de uma vez: “não jogue o bebê fora junto com a água do banho”! Ouve-se com frequência e, ironicamente, é esquecida por conveniência. A frase foi cunhada em um período que o banho ocorria em tinas e obedecia a uma regra de preferência etária. Começava com o chefe da casa, o primeiro a receber a água limpa, seguindo até chegar a vez do bebê, quando é possível imaginar a imundice depois de tantos fazerem a higiene corporal antes. Uma coisa que chegava até a esconder a pobre criança, que corria sérios riscos de ser esquecida e descartada também.
Foi exatamente isso que aconteceu. Quando o país decidiu vender as estruturas do Estado, jogou fora junto a criança: a BR Distribuidora, as refinarias, as reservas estratégicas de combustíveis, a capacidade de produção de fertilizantes… Foram pelo ralo junto com a “água suja” da ineficiência que tanto incomodava. O problema é que, na pressa de se livrar da tina, ninguém parou para perguntar o que mais estava dentro dela.
O que escrevi lá em 2022, sobre a importância dos combustíveis fósseis para a estabilidade social e política, segue valendo. Não é o acaso que explica os preços praticados nos postos espalhados pelo Brasil. Vivemos um novo patamar porque fizemos escolhas como país. Optamos por entregar à lógica do mercado um bem fundamental, que permitia ao poder público utilizar como instrumento de equilíbrio social. Agora, não adianta se espantar quando parte da riqueza não é distribuída, ou melhor, fica pelo caminho antes de chegar no tanque.
Afinal, as privatizações foram vendidas com apresentação belíssima, que representariam mais eficiência, modernidade, mercado livre… Não é preciso nem argumentar muito com qualquer motorista sobre os resultados desta opção. Basta parar nos postos de combustíveis e conferir na bomba.
É importante lembrar disso. Em 2026, alguém vai prometer gasolina mais barata sem explicar exatamente o que vai fazer. Ou se pretende desfazer este imenso dique que bloqueia o caminho dos descontos concedidos da extração e refino ao consumidor. Mais que um tanque, o eleitor precisa abastecer a memória com boas e verdadeiras informações.
Tarciso Souza, jornalista e empresário


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