Opinião: a história dos desejos desejados e as cicatrizes

Foto: reprodução

Diante dos debates acalorados que temos visto nos últimos dias sobre preferências de estilos de música, de ideologias políticas, ou, ainda, em se tratando de fãs de futebol, gostaria de propor uma reflexão sobre o que constitui nossa singularidade enquanto sujeitos e em que medida nossas preferências individuais estão submetidas ao contexto no qual estamos inseridos.

Diferentemente de um tempo presente estático, como uma foto ou uma pintura, o tempo presente pode ser entendido como um não tempo, ou, ainda, o futuro tornando-se presente no momento em que já se faz passado. É um constante escorregar por entre os dedos. É mais fácil falarmos em termos de futuro e de passado do que identificarmos o único momento no qual vivemos, que é sempre o presente e que nos escapa. 

Nessa perspectiva, pode-se partir do pressuposto de que compreender a realidade perpassa por ter em mente que estamos submetidos a um processo histórico em constante movimento e que a realização da história se dá no próprio movimento, no próprio “devir”, com diriam os filósofos. É interessante termos presente, assim, que pode haver uma relação dos fatos presentes com os fatos anteriores a eles que os possibilitaram e que isso de algum modo limita as possibilidades de desdobramentos futuros.

O ponto no qual gostaria de adentrar perpassa por reconhecer que estamos submetidos a um contexto sócio, histórico e cultural, lançados nele, e que tal contexto em alguma medida nos influencia, mesmo que não tenhamos consciência disso. Seríamos a história de desejos desejados, como diria Kojève, sejam desejos desejados por nós, por nossa família, pela nossa sociedade, consideração essa com a qual Freud concordaria. 

Há projeções em nossa época, sejam de valores estéticos, de valores profissionais, morais e outros, em grupos como família, amigos, escola, igreja, comunidade, sociedade. Em nossa vida psíquica nos defrontamos com as expectativas do grupo em um constante “sim” e “não” de nós mesmos com a adequação do que se projeta em nós, é o constante pêndulo entre a sujeição e a revolta aos desejos desejados de outros sobre nós. 

Muito desse processo não nos é consciente. E não em uma perspectiva de que um dia isso pode ser consciente, como um status de uma informação que passa de “sigiloso” a “público”. E sim no sentido de que é um outro modo de operação mental em cada um de nós, um modo que engloba uma série de representações em nós e que nos influencia sem que possamos ter plena consciência disso. É a história do grupo reverberando em nós, influenciando nosso modo de pensar, mas também o nosso corpo, inclinações, desejos. 

Mesmo nossos padrões estéticos de beleza e de arte pode ter influência do meio. Independente da cultura ou da época, uma rosa ou a lua cheia são consideradas belas. Mas outras noções de beleza costumam desaparecer com o tempo, são culturalmente determinadas. Basta, para exemplificar, as várias noções de belo corpo no decorrer da história. 

Esse exemplo, adicionalmente, nos encaminha para outra consideração, a de que historicamente, desde Platão, valorizamos mais as ideias do que o real, esse real que tradicionalmente consideramos como um “vale de lágrimas”. Com Kant, valorizamos a razão em detrimento da natureza. Quero dizer, nos dias de hoje, mesmo quando se trata de corpo, o que se deseja é uma imagem idealizada de corpo, uma ideia de corpo que nunca corresponde ao corpo real, ao corpo factível. Tudo o que é natureza em nós, o empírico, o real, deve ser domesticado, civilizado, silenciado, moralizado para adequar-se ao que se espera de nós enquanto ideia. As nossas definições de liberdade, por exemplo, com frequência recorrem a prioridade da razão e à negação da natureza.

Diante disso, somos o que Adorno chamará de uma coleção de cicatrizes. Os animais possuem desejos, como nós. Mas nós, diferente dos demais animais, podemos ter desejos de não termos alguns dos desejos. Termos o desejo de comermos chocolate e o desejo de não termos tal desejo, visando um ideal de hábito alimentar ou de corpo. 

E nessas inadequações e controle, formando cicatrizes e tocando a nossa vida como se pode, projetamos nós mesmos nos outros e esperamos que os outros se encaixem em nossas categorias de mundo para interagirmos em sociedade. É a primazia do “eu”, do “eu penso”, que projeta no “outro” o modo como “eu” entendo o mundo e, com isso, não compreendo o “outro” com os olhos dele mesmo. Isso faz com que a diferença e a diversidade, mesmo quando reconhecidas, tenham que se encaixar em categorias mais gerais e reducionistas da riqueza de suas singularidades. É nesse sentido que podemos entender também, por exemplo, o desafio do reconhecimento de minorias que, para serem reconhecidas, se reduzem a classificações que já seriam reconhecidas pelos demais e, nessa também cisão entre o aceite e a revolta diante do que se espera, se cria também cicatrizes. 

Em um exercício reflexivo, tomando o Brasil na condição de sujeito, a pergunta sobre “como o Brasil nos parece” talvez possa, por hoje, ser pensada em termos de qual é a projeção ideal sobre a vida real do Brasil? Quais as cicatrizes que o Brasil está cultivando para a constante adequação às projeções ideais seja da economia, seja da política, seja da cultura ou da religião?

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