Mais carros significam mais qualidade de vida?
Acreditar que mais carros nas ruas possam melhorar a qualidade de vida das pessoas é admitir que ainda estamos muito longe de compreender qual é a cidade de que realmente precisamos para viver.
Desde quando ter mais veículos nas ruas passou a ser sinônimo de uma cidade mais desenvolvida?
Na outra semana, ouvi novamente uma afirmação que, de tão repetida, já se tornou uma falácia. Desta vez, pior: partiu de uma autoridade estadual de trânsito, que afirmou que Santa Catarina possui uma frota elevada de veículos porque aqui há qualidade de vida.
Confesso que é surpreendente como esse argumento ainda encontra defensores. Não por negar que Santa Catarina possa apresentar bons indicadores de qualidade de vida, mas por reduzir um fenômeno tão complexo a uma explicação tão simplista. A quantidade de veículos em circulação é resultado de uma combinação de fatores econômicos, urbanísticos, culturais e da própria oferta — ou ausência — de alternativas eficientes de mobilidade.
Longe de mim fazer juízo de valor com base em uma frase que pode estar fora de contexto. Mas entendi que a ideia seria a seguinte: se os catarinenses têm maior poder aquisitivo e, portanto, mais liberdade para decidir se compram ou não um veículo, então essa escolha passa a ser também de sua responsabilidade.
Em outras palavras, seria incoerente associar um maior grau de desenvolvimento justamente a quem possui mais opções de escolha e, ainda assim, faz uma escolha inadequada. Se a premissa é que desenvolvimento está ligado à capacidade de tomar decisões conscientes, uma decisão equivocada, quando havia liberdade para escolher, indicaria exatamente o contrário.
E é aí que mora a feiura da questão. Em um lugar que realmente tenha qualidade de vida, o cidadão pode optar por comprar um veículo ou não. Mas, justamente por ter essa escolha, o automóvel deveria ser preterido, simplesmente porque cada novo veículo em circulação tende a piorar a qualidade de vida da cidade e, consequentemente, a qualidade de vida de quem nela vive.
Até aí, tudo bem. Porém, é nessa dicotomia que reside a verdadeira discussão: mais carros, menos qualidade de vida.
O problema está muito mais na forma como queremos viver do que na realidade em si. Como alguém pode falar em qualidade de vida associada a mais veículos justamente em um momento em que as cidades clamam por soluções para o trânsito e as rodovias catarinenses vivem congestionamentos cada vez mais frequentes em razão do excesso de veículos?
Sob a ótica predominante no Brasil, quem tem condições financeiras compra um veículo; quem não tem, anda a pé ou depende do transporte público.
Essa lógica individual até pode fazer sentido. Porém, quando pensamos em sociedade, é justamente aí que a afirmação da autoridade sobre qualidade de vida perde força. Afinal, não moramos sozinhos na cidade. Todos os espaços são compartilhados, e a verdadeira qualidade de vida nasce da forma como dividimos esses espaços.
Considerando a dificuldade que muitos brasileiros enfrentam diariamente pela falta de opções de transporte público, parece razoável pensar que adquirir um veículo proporcionará mais conforto, segurança e eficiência, mesmo que isso implique um custo muito maior, tanto individualmente quanto para toda a sociedade, que precisará adaptar a cidade para comportar cada vez mais automóveis.
Nenhuma cidade reconhecida mundialmente pela elevada qualidade de vida sustenta que ela existe porque há muitos veículos circulando. Pelo contrário: são justamente essas cidades que, há décadas, vêm restringindo o uso do automóvel e priorizando o transporte coletivo, a caminhada e a bicicleta.
Como dizia Jaime Lerner, “o automóvel é um convidado ruim: depois que você o chama para sua casa, percebe que ele bebe demais, come demais, ocupa cada vez mais espaço e nunca mais quer ir embora”.
Todas as cidades que obtiveram avanços significativos na mobilidade partiram do mesmo princípio: reduzir a utilização do automóvel e ampliar os espaços destinados aos pedestres, aos ciclistas e ao transporte público.
Cidades como Copenhague, Barcelona, Paris, Oslo e Pontevedra demonstram que restringir o espaço destinado aos automóveis e priorizar pessoas, bicicletas e transporte coletivo resulta em maior segurança, melhor mobilidade, mais atividade econômica e melhor qualidade de vida.
No Brasil, há um caso curioso que nos faz refletir sobre como esse modelo também pode dar certo. Afuá, no Pará, demonstra que uma cidade pode oferecer qualidade de vida sem depender do automóvel. Embora, sob a visão predominante, pudesse ser considerada uma cidade com baixa qualidade de vida, sua realidade na mobilidade urbana é justamente o oposto do que vemos em Santa Catarina. A proibição da circulação de carros surgiu por necessidade, já que a cidade foi construída sobre palafitas, em uma região alagada. A mobilidade passou a ser feita principalmente a pé, de bicicleta e por triciclos. O que inicialmente era uma limitação transformou-se em uma característica marcante da cidade. Ruas mais silenciosas, seguras e voltadas às pessoas mostram que a qualidade de vida está muito mais na forma como compartilhamos o espaço urbano do que na quantidade de veículos que possuímos.
Em suma, não existe qualidade de vida baseada em mais veículos. Para alcançá-la, é preciso, antes de tudo, que as autoridades tenham clareza sobre o modelo de cidade que desejam construir. A partir dessa convicção, será possível formar uma consciência coletiva de que mais carros e mais espaço para automóveis não representam progresso. As cidades devem ser feitas para as pessoas. Quanto antes iniciarmos essa mudança de pensamento, mais cedo construiremos lugares melhores para viver.
Com trânsito não se brinca.
Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito
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