Entre Nós | Ninguém planeja resgatar e adotar um pet

Foto: reprodução

O café está servido, com aquele cheiro que preenche todo o ambiente em uma bela manhã de domingo. Depois de uma ou duas canecas caprichadas, de fato, você acorda, olha para o infinito e pensa: hoje vou adotar um cachorro.
Convenhamos, não é assim que as coisas acontecem, né? É a vida quem decide quando, como e qual o motivo de carregar um filhotão para dentro de casa.

Uma vez “surge um embrulho” no lado de fora do portão. Em um momento pisca uma foto no grupo do WhatsApp. Ou, quando você vai almoçar no trabalho, encontra uma criaturinha com o olho brilhando na sarjeta. Fazer o que? Basta aceitar que, naquele instante, a família cresceu.

Lá na newsletter Entre Nós Pet desta semana eu falo exatamente sobre isso. Uma pesquisa divulgada no Dia Mundial do Animal de Rua, produzido pela empresa GoldeN, em parceria com a Opinion Box, revelou que 8 em cada 10 pets adotados no Brasil não vieram de ONG nem de abrigo. Os bichinhos saíram da rua trazidos pelo próprio tutor, ou chegaram pela rede de amigos. Apenas 18% passaram pelos canais formais de adoção.

A pesquisa revelou que 34% dos pets que encontraram lares foram tirados das ruas pelo próprio adotante. E 46% vieram da rede de contato. Sabe aquele amigo que postou no grupo de WhatsApp, aquela colega que encontrou filhotes embaixo do carro e pediu socorro. A lógica é esta mesma.

Os números contam uma história que vai além da estatística. O sistema oficial de adoção ainda encontra muita dificuldade para alcançar as pessoas. E, na prática, quem está salvando os animais é o cidadão comum, sozinho, sem treinamento ou suporte, agindo no impulso de uma compaixão que não pede licença.

Para 87% dos entrevistados falta um suporte pós-adoção para ajudar a evitar o abandono. Este grupo acredita que consultas veterinárias com desconto e campanhas educativas seriam medidas eficazes para diminuir a taxa de abandono de animais ou devolução pós-adoção.

Se por um lado, estes números mostram o belo gesto da sociedade em agir com o coração, por outro, também revela uma enorme barreira para transformar as ruas brasileiras em ambientes sem animais abandonados. O Brasil tem hoje cerca de 30 milhões de cães e gatos em situação de rua, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). É o maior canil a céu aberto do planeta (uma hipérbole, é claro). E a resposta que o poder público oferece ainda é insuficiente. Faltam campanhas de castração em escala, clínicas veterinárias acessíveis, educação sobre posse responsável nas escolas.

Os problemas financeiros aparecem como principal gatilho para ter que abrir mão de um companheiro pet para 48% dos pesquisados. Para outros 39% a dificuldade é para lidar com o comportamento do animal. Os dados compõem o quadro sobre a devolução dos patudos adotados que, por algum motivo, voltaram para as ruas, abrigos ou amigo que doou o bichinho.

É revelador também que 60% dos brasileiros entrevistados reconhecem que existe preconceito contra os vira-latas. Mas 86% dizem que a adoção de SRDs deveria ser mais incentivada.

Adotar não deveria ser um ato de heroísmo solitário. Deveria ser um gesto simples, apoiado por uma rede que ainda precisamos construir e, sim, muito planejamento pessoal para realmente escolher o momento ideal para abrigar um amor de quatro patas. Faltam políticas públicas, serviços acessíveis e principalmente uma cultura que trate o abandono como o que ele é: uma falha coletiva, não apenas individual.
A pesquisa GoldeN/Opinion Box entrevistou 1.080 pessoas de todos os estados do Brasil.

Tarciso Souza, jornalista e empresário

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*