Dirigir de modo a evitar acidentes (sinistros) independentemente das condições adversas, essa é a definição de dirigir defensivamente, e, ao analisá-la superficialmente, faz parecer que todos nós dirigimos dessa maneira, defensivamente.
Fato é que existe uma confusão entre o entendimento correto dessa definição: não querer causar acidentes não é o mesmo que querer evitar. Não é porque não queremos causar que estamos tentando evitar.
O questionamento que nos cabe é direto e desconfortável: será que nosso modo de dirigir é, de fato, orientado para evitar sinistros?
Sem demagogia teórica, apenas na prática, o que realmente fazemos ao volante? Estamos tentando evitar ?
A resposta não está no discurso, mas no comportamento. E é nele que se revela uma verdade incômoda: muitas vezes, não dirigimos para evitar sinistros, dirigimos para chegar antes, para não ceder espaço, para manter um ritmo que nos parece conveniente.
Os dados ajudam a tirar essa resposta do campo da opinião: no Brasil, mais de 90% dos sinistros de trânsito estão ligados a falhas humanas, e isso se repete há muitos anos. Mas com qual impacto? Informações como excesso de velocidade, distração (como o uso do celular), álcool e desrespeito às regras são determinantes. O uso do celular ao volante, por exemplo, pode aumentar em até 4 vezes o risco de colisão, enquanto o excesso de velocidade está presente em cerca de 1 a cada 3 mortes no trânsito. E todos, sabendo disso e não fazendo nada, para que serve?
Dirigir corretamente não se trata de intenção, mas de comportamento: evitar sinistros exige decisão ativa, atenção constante e disciplina. Quem apenas “não quer causar” continua exposto ao erro; quem realmente quer evitar, muda a forma de dirigir.
Mesmo que muitos condutores possam pensar que dirigem defensivamente, na verdade fazem exatamente o contrário. Um condutor que dirige em alta velocidade talvez pense que não quer causar um acidente e que estar acima da velocidade é apenas para chegar mais rápido, mas, fatalmente, essa atitude não faz dele um motorista defensivo, pois não querer causar é diferente de querer evitar. O motorista defensivo quer evitar, tem informações corretas e, com elas, respeita o conhecimento que tem na teoria e as coloca em prática.
Assim acontece com quem ultrapassa equivocadamente, dirige utilizando telefone celular, dirige embriagado, estaciona irregularmente, é incrível que, se forem questionados, inclusive mesmo depois de se envolverem em algum sinistro, seja comum pensarem que não tinham a intenção de causar um acidente. Alegam que foi sem querer, trazendo uma aceitação aos seus erros absurdos, mas, obviamente, não estavam dirigindo de modo a evitar, então sua decisão e seu erro, dos quais teve escolha, são de sua total responsabilidade.
A direção defensiva não é definida pela sua intenção e vontade, e sim pelos seus atos na direção. Toda vez que cometemos uma infração ou não dirigimos corretamente, e estamos errados, com intenção ou não, seja por negligência, imprudência ou imperícia, somos ofensivos e devemos ser punidos.
Quando atuo em cursos ou palestras para condutores mais experientes, sempre indago em sala de aula sobre a forma como os condutores ali interpretam a condução dos motoristas brasileiros. É quase uma unanimidade acharem os motoristas brasileiros ruins pelo menos a turma que está presente no curso; ou seja, os ruins são sempre os outros, mas, no olhar alheio, somos nós o problema.
E você, como enxerga o motorista brasileiro? E como vice esta dirigindo?
No trânsito, não adianta só não querer causar um sinistro, tem que dirigir de forma a evitar; e, enquanto a gente continuar achando que o erro é sempre do outro, seguimos sendo, sem perceber, parte do problema.
Com o trânsito não se brinca.
Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito
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