Opinião | A cidade é uma penteadeira, cabe o mundo inteiro e pode salvar seu coração

Imagem gerada com IA

Há um cansaço no ar. Não é visível, mas pesa. Vem das telas, dos dedos que deslizam, dos olhos que vêem tudo e não encontram ninguém. A cidade, essa que deveria nos acolher, às vezes nos atravessa como um ruído contínuo — e ainda assim, há algo nela que insiste em ser abrigo.

Penso, então, no espaço público como quem pensa em um reencontro. Uma praça não é apenas uma praça. É uma possibilidade. É o instante em que alguém senta ao lado de outro alguém e, sem saber, partilham o mesmo sol, entendo que há nisso uma delicadeza que não se compra.

Talvez o luxo do futuro seja mesmo esse: encontrar. Encontrar alguém, encontrar tempo, encontrar-se. Sem mediação, sem pressa. Apenas estar.

Lembro das ideias de Jane Jacobs — ainda que o nome pouco importa diante da sensação que fica — de que a cidade vive quando as pessoas vivem nela de verdade. Quando há mistura, quando há diferença, quando há olhos atentos na rua e passos que não têm medo de existir. A cidade viva não é perfeita: mas ela se arruma.

Mas o que vemos, tantas vezes, é o contrário. Lugares que exigem consumo para permitir presença. Bancos que não convidam a sentar, espaços que pedem permissão para existir. Tudo muito limpo e inteligentemente  controlado — e, por isso mesmo, vazio de vida. Como se a espontaneidade fosse um erro a ser corrigido, uma ameaça constante.

E então a cidade adoece. Ou talvez sejamos nós que adoecemos nela.

A saúde mental — essa coisa tão falada e tão pouco sentida — talvez esteja escondida nas pequenas pausas: no caminhar sem destino, no olhar trocado, no silêncio compartilhado. Há cura no cotidiano quando ele não é apenas obrigação.

Mas há um perigo sutil: transformar tudo em valor, em lucro, em cálculo. Quando a cidade passa a exigir retorno financeiro para justificar sua existência, ela deixa de cuidar e começa a cobrar. E o que era encontro vira transação. O que era livre, condicionamento.

E então, quase sem perceber, desaprendemos a ser juntos.

A cidade do futuro — se é que posso chamá-la assim — não será feita apenas de concreto, propaganda ou tecnologia. Será feita de intervalos. De espaços onde ninguém precise comprar nada para permanecer. De lugares onde a vida aconteça sem ser medida.

E continuo pensando, como quem não quer concluir — porque certas ideias não pedem fim, pedem permanência.

Fala-se, cada vez mais, em uma “cidade do cuidado”. Embora o termo pareça abstrato, sua essência é simples: trata-se de uma cidade onde as conexões humanas possam acontecer de forma livre e genuína.

Uma cidade assim não escolhe quem pode vivê-la. Ela acontece para todos. Há dignidade nisso: calçadas que não excluem, bancos que não expulsam, bairros que não são esquecidos. Tudo é feito com um certo cuidado silencioso, como quem prepara uma casa para receber alguém querido. E então as pessoas vêm, diferentes, múltiplas e nessa mistura, a cidade deixa de ser monótona. Ela respira diversidade, fica mais elegante e sofisticada.

Mais do que isso, reconhece o impacto do ambiente urbano na saúde mental. Incentiva o equilíbrio entre trabalho e descanso e valoriza a convivência como parte essencial do cotidiano. Também atua como um contraponto à exaustão digital. Ao estimular a permanência em espaços públicos, cria oportunidades reais de conexão. Reforça a ideia de que o verdadeiro luxo contemporâneo não está no consumo, mas nas relações humanas.

Nesse sentido, a metáfora da cidade como uma penteadeira ajuda a sintetizar essa visão. Assim como esse objeto cotidiano, a cidade pode ser um lugar onde cabem múltiplas experiências, memórias e encontros. Um espaço que acolhe, organiza, e revela quem somos.

Há também o corpo. Porque viver numa cidade é também um gesto físico. O calor que não agride, o vento que circula, a água disponível que hidrata, o banheiro limpo como dignidade pública, as árvores e jardins que não são enfeite, mas companhia. Uma cidade acolhedora convida sem dizer palavra: “fique mais um pouco”  e a pessoa fica, anda, senta, toma sol,troca uma ideia com alguém, e  sem perceber, se recompõe.

Penso que há uma delicadeza nisso de equilibrar o dia. Trabalhar sim,  mas também descansar sem culpa. Encontrar alguém no meio do caminho e deixar que a conversa interrompa o tempo. Há uma espécie de saúde que nasce dessas pequenas quebras na rotina. Uma saúde que não se mede, mas se sente.

E então volto à exaustão que mencionei antes. Àquela que vem das telas, a cidade, quando viva, oferece uma saída. Não como fuga desesperada, mas como alternativa possível. Ficar num espaço público, simplesmente ficar, já é um gesto de resistência, é escolher o encontro em vez do isolamento. É lembrar que “o luxo do futuro é ter conexões reais” — dessas que vão além dos aplicativos.

Mas há sempre uma tensão, quase invisível. Uma tentativa de transformar tudo isso em produto, em estímulos programados. Como se o simples ato de estar precisasse ser justificado por um consumo. Comer, pagar, entrar, sair no horário certo, como se todos fossem iguais. 

Com isso, o desafio central é resistir à lógica da privatização excessiva. Quando todo espaço precisa ser rentável, quando estar em um lugar implica consumir, a cidade perde sua função mais essencial. A padronização e o excesso de regras limitam a liberdade, enfraquecem os vínculos e reduzem a capacidade de convivência.

É isso que temos vivido— e isso endurece a cidade.

Porque quando o espaço público deixa de ser livre, ele deixa de ser encontro. Vira cenário. Vira uma vitrine. E as pessoas, sem perceber, passam a se comportar como quem pede licença para existir.

Chamam isso, em termos mais diretos, de um tipo de doença da cidade. Um “câncer”, dizem. Eu penso apenas que é uma perda. Uma perda daquilo que não deveria ser negociável: a liberdade de estar, de falar, de ser.

Talvez, no fim, a cidade do cuidado seja aquela que entende uma coisa muito simples — e muito difícil: que o espaço público é o lugar mais democrático que temos. É ali que a vida se cruza, que as ideias circulam, que o inesperado acontece.

E talvez seja ali também que descobrimos quem somos, e nos empoderamos da nossa cidadania.

No fim, pensar a cidade é pensar como somos. A forma como ocupamos nossos espaços revela nossos valores: se priorizamos o controle ou a abertura, o lucro ou o cuidado, o isolamento ou o encontro — revela, sem disfarce, em quem nos tornamos como sociedade.

Daniela Sarmento, arquiteta e urbanista

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