No Brasil, existe um tipo curioso de preconceito que muita gente insiste em chamar de opinião política. É a xenofobia “do bem”. Aquela praticada pela elite e por parte dos eleitores de direita que se sentem moralmente superiores, modernos e patriotas, mas que não perdem a chance de destilar ódio contra o Nordeste e seu povo.
Toda eleição é a mesma ladainha. Quando o resultado não agrada, o culpado nunca é o projeto ruim, a mentira mal contada ou a desconexão com a realidade do povo. O culpado é sempre o eleitor nordestino. “Vota errado”, “vive de auxílio”, “não trabalha”, “atrasou o Brasil”. Um pacote de preconceitos repetidos sem vergonha, como se milhões de pessoas fossem um bloco burro e manipulável.
Curiosamente, essa indignação seletiva não aparece quando decisões políticas são impostas de cima para baixo pela própria elite que se diz liberal e democrática. Aí o discurso muda. A democracia vira detalhe. O debate desaparece.
O mesmo eleitor que grita contra o Nordeste aceita calado a imposição de uma candidatura ao Senado de um ex-vereador do Rio de Janeiro, alguém sem qualquer vínculo real com o estado que pretende representar. Não importa o histórico político, não importa o compromisso com a população local, não importa nem a coerência mínima. Basta ter o selo certo, o sobrenome certo e, claro, a bênção do mito.
São também os mesmos que se orgulham de pendurar bandeira dos Estados Unidos na sacada, que falam inglês macarrônico com ar de superioridade e dizem, sem constrangimento, que “Trump está certo”. Certo em quê? Em apoiar uma política assassina do ICE, que persegue imigrantes, separa famílias, prende pessoas sem o devido processo legal e trata seres humanos como ameaça. Aplaudem deportações em massa como se fosse limpeza social. Muitos deles, ironicamente, são descendentes diretos de imigrantes pobres mas acham que a dor só é aceitável quando atinge latinos, negros e miseráveis. Direitos humanos, para essa turma, só valem quando não atrapalham o conforto.
O Nordeste incomoda porque vota. Incomoda porque participa. Incomoda porque não se submete à narrativa de que só existe um Brasil aceitável: o Brasil que se parece com a elite do eixo Rio–São Paulo, branca, herdeira e convencida de que mandar é um direito natural.
No fundo, o discurso contra o Nordeste não é sobre economia, nem sobre política pública. É sobre controle. É sobre não aceitar que gente simples tenha poder de decisão. É sobre achar que democracia só vale quando o resultado agrada.
Mas quando a contradição é escancarada, quando o oportunismo político é evidente, ninguém questiona. Ninguém chia. Ninguém faz textão indignado.
Mas é Bolsonaro então pode! Viva a hipocrisia!
Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos




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