Opinião | Entre Bolsonaro e Lula, o “ódio do bem” escolhe quem merece sofrer

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O Brasil mata muito e continua inseguro. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 6 mil pessoas morrem por ano em ações policiais no país. A letalidade cresce, o discurso de mão dura é aplaudido, mas o medo segue intacto. Gente com receio de sair de casa, de voltar tarde do trabalho, de confiar no Estado. Se matar resolvesse, o Brasil já estaria em paz. Não está. Porque o debate nunca foi, de fato, sobre segurança pública. Sempre foi sobre quem pode sofrer sem causar indignação.

É nesse cenário que a política brasileira transforma dor em arma.

Os problemas de saúde de Jair Bolsonaro são reais. Cirurgias, internações e sequelas da facada de 2018 não são invenção. Qualquer pessoa minimamente racional entende que doença não deve ser motivo de deboche. O ponto não é esse. O ponto é a empatia seletiva. A comoção surge quando o sofrimento atinge o nosso lado.

Quando Lula foi preso em abril de 2018 e passou 580 dias encarcerado, a reação foi outra. Não houve comoção ampla, nem preocupação com idade, saúde ou isolamento. Houve comemoração, ironia e silêncio cúmplice diante de excessos que, anos depois, o próprio Supremo Tribunal Federal reconheceu, ao anular condenações e apontar a parcialidade do processo. Naquele momento, direitos humanos eram tratados como piada. Questionar abusos era defender bandido.

Agora, quando Bolsonaro enfrenta limitações físicas, o discurso muda. Fala se em humanidade, perseguição, crueldade do sistema. A pergunta aparece com força. Onde estão os direitos humanos? A resposta é desconfortável. Sempre estiveram no mesmo lugar, ignorados quando não serviam à narrativa.

Essa lógica tem nome. ÓDIO DO BEM.

É o ódio que se acredita moralmente autorizado.
É a crueldade justificada pela ideologia.

Funciona assim.
Se a dor é do inimigo, é merecida.
Se a dor é do aliado, é injustiça.

O ÓDIO DO BEM não se assume como ódio. Ele se veste de justiça, de correção moral, de castigo exemplar. Permite rir da prisão alheia, minimizar mortes nas periferias, relativizar direitos e, depois, exigir compaixão quando a dor muda de lado.

Enquanto isso, a realidade segue brutal. A polícia mata muito, morre muito e não entrega segurança. A população continua insegura. Mas o debate público prefere a guerra simbólica. Quem merece sofrer mais, quem pode ser desumanizado hoje, quem vira estatística sem nome.

Direitos humanos, no Brasil, deixaram de ser princípio universal. Viraram instrumento político. Valem conforme o personagem, o voto, a bolha. E um país que escolhe quem merece sofrer não constrói justiça. Constrói ciclos de violência, hipocrisia e cinismo.

No fim, não se trata de defender Bolsonaro ou Lula. Trata se de encarar um vício nacional. Trocar ideias por ídolos e justiça por torcida. Enquanto for assim, a insegurança continuará. Nas ruas e no debate público.

Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos

1 Comentário

  1. A diferença entre Lula e Bolsonaro é simples , Lula foi condenado com milhares de provas, Bolsonaro esta preso sem uma única prova.
    Quanto a direitos humanos, este gente só serve para defender bandido.
    Quando a polícia mata uma vagabundo eles aparecem, mas quando vagabundo mata polícia , ficam quietinhos .Muita narrativa, muito mimimi quando é para defender vagabundo na prisão, mas nada para as vitimas destes mesmos vagabundos.

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