O direito à representação

Na última sexta-feira, 8, publicamos a notícia que Lenilso Silva assumirá como vereador em Blumenau no mês de novembro, ele que é suplente pelo PT.

A chamada foi que Blumenau terá um vereador negro e gay. É jornalístico o título.  Em mais de 130 anos de história, é o segundo negro a assumir o parlamento. E o primeiro gay que defende as bandeiras do movimento como plataforma política. Ou seja, é incomum e, portanto, importante identificar os motivos pelo qual isso não acontece com a frequência que deveria.

Mesmo com as evidências, o povo do Facebook desancou o Informe e o Lenilso. Mas como não estamos para fazer média com pessoas intolerantes – mas sempre aberto ao contraditório, com respeito -, abrimos espaço mais uma vez para o assunto, agora no artigo escrito pelo próprio Lenilso.

Lenislo Silva

Suplente vereador PT

 

Ao longo da história humana, sobretudo no ocidente, os cargos públicos, foram e continuam sendo, ocupados majoritariamente por homens, brancos, heterossexuais e ligados ao poder econômico. Isso não é achismo, é fato sabido e registrado tanto no conhecimento acadêmico quanto em qualquer livro didático de história.

Na tradição política de Blumenau este perfil é ainda mais hegemônico, basta uma rápida conferência na lista dos que já ocuparam, ou ocupam, as cadeiras da Câmara de Vereadores ou os cargos de Prefeito e Vice. Este predomínio, passado e presente, de um determinado perfil de homem público leva parte da sociedade a viver um estranhamento quando mulheres, trabalhadores, negros e LGBTs começam a disputar e obter parte dos espaços de poder e decisão.

Este estranhamento deve ser superado em favor da democracia. A política nos modelos democráticos representativos pressupõe a existência de espaços, o parlamento é um deles, em que a pluralidade presente na sociedade seja representada politicamente, o que permite mediar os conflitos e ponderar todas as necessidades, presentes no tecido vivo da comunidade, quando se constrói a lei ou as políticas públicas.

Assim sendo, é altamente contraditória, e um grande prejuízo para a democracia, a baixa representação nos postos de comando de mulheres, negros, LGBTs e trabalhadores. “Quando uma mulher entra na política muda a mulher, quando muitas mulheres entram na política, muda a política”. Essa frase emblemática da atual presidenta do Chile Michele Bachelet poderia ser usada para todos os setores sociais com baixa participação nos espaços de comando. Foi quando as mulheres entraram pra política que sua realidade mudou. Há 83 anos as mulheres sequer podiam votar, quiçá sonhar em ocupar o maior cargo da república. Foi a ascensão das mulheres na política, sua organização e mobilização para ocupar espaços, que possibilitou a ampliação, ainda insuficiente, de direitos para elas. Será, realmente, possível acreditar que as mulheres teriam obtido tais coisas, que resultaram da luta de gerações de feministas, se dependessem exclusivamente da benevolência masculina? Creio que não.

Os LGBTs e negros precisam fazer o mesmo. O Brasil é campeão de morte LGBTfóbica, a cada 28 horas uma pessoa entre Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros é morta por crime de ódio. Não temos a LGBTfobia criminalizada, não obtivemos o direito do uso do nome social, não temos a garantia dos direitos para nossos modelos de arranjo familiar e as políticas públicas não reconhecem nossas especificidades. Trabalhamos, estudamos, amamos e pagamos impostos, mas não existimos jurídica e politicamente. Essa invisibilidade parcial a que nos desejam condenar não pode ser aceita, só gera dor, miséria e hipocrisia e corrói a qualidade da vida em nossa sociedade.

Quando falo da população negra o drama não é menor, Sofremos mais de 300 anos de escravidão que explorou nosso trabalho e nos marcou como gado. Ainda sentimos a dor da chibata, somos minoria nas universidades e a maioria entre os pobres e os que estão na extrema pobreza. No mercado de trabalho ocupamos os cargos de menor prestígio e pior remuneração e nossas manifestações religiosas, a umbanda e o candomblé, são discriminadas e perseguidas.

Os jovens negros são as vitima preferenciais do aparato repressivo do estado, sendo, cotidianamente, vítimas de um verdadeiro extermínio. Para mudar esta realidade e construir um mundo melhor não basta estar convencido de que todas as pessoas devem ser livres e iguais, é preciso reconhecer que, concretamente, a sociedade em que vivemos ainda é fortemente marcada por desigualdades resultante de diferenças: políticas, religiosas, econômicas, étnicas, de gênero, etc.

Estas injustiças, se realmente estamos comprometidos com a democracia, devem ser combatidas, uma das muitas formas de fazer isso é dar voz e vez a estes setores na vida pública.

Este é o espírito que me moverá em minha experiência de vereança, cumprir o compromisso que tenho com as 1267 pessoas que votaram em mim para dar voz a grupos que não podem nem devem mais ser invisíveis, grupos que cumprem seus deveres com a cidade e adquiriram assim o direito de ter direitos. Ser honesto é a virtude mínima a se exigir de um político, é preciso mais que isso, um parlamentar deve se mover por grandes ideais de justiça.

Crendo nisto o mandato que exercerei se pautará pela defesa dos mais altos valores civilizatórios: tolerância, igualdade, justiça e afeto.

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4 Comentário

  1. Olá, Lenilso!

    Eu, o sábio Alcino Carrancho, não dou a mínima para o fato de você ser o que é, ou seja, não o descrimino em absoluto nem para mais nem para menos.

    Você, Lenilso, assim como quem o ataca, foi criado à imagem e semelhança de DEUS e lhe afirmo firmemente que DEUS não faz porcarias.

    Mas…

    Você estragou tudo quando se filiou a esse execrável pt, partido pequeno sem ideais, mas grande em corrupção.

    O pt, seu partido político, é o chorume do lixo dos partidos políticos brasileiros.

    O seu ptzinho deu o maior golpe neste Brasil desde que Pedro Álvares Cabral por cá aportou.

    Foram 13 anos que demorarão muito a ser depurados, Lenilso!

    Pena!

    Boa sorte, no entanto, Lenilso Silva!

    Alcino Carrancho

    (O Humano, mas Anti-chorume)

  2. Eu, Alcino Carrancho, o Sábio (rsrsrsrs…) sou totalmente a favor do homossexualismo ENTRE OS PETISTAS, pois, assim, os mesmos não se reproduzirão.

    Alcino Carrancho, O Patriota, Anti-petista

  3. Se recebeu somente 1.267 votos…one estão todas as pessoas que lutam pela igualdade?
    Porque não votaram em seu representante?
    Igualdade e ser igual e não achar que opção sexual ou cor da pele muda algo.
    Não vejo diferenças entre brancos, heteros,
    Negros ou opção sexual, a diferença so está na cabeça de que quer ser diferente e utiliza isto como marketing .
    Não deve utilizar a questão sexual ou cor da pele como bandeira política, use a dignidade de um ser humano, isto basta .
    Sou branco e hetero, nem por isto me acho mais importante que uma pessoa que não é igual, mas me acho superior a quem comete atos ilícitos, estes sim , devem ser discriminados pela sociedade .Se quero respeito, preciso primeiro respeitar.

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