A condição feminina e a posse de armas

Aroldo Bernhardt

Professor

Com o surgimento da sociedade industrial, a mulher assumiu postos de operária nas fábricas, deixando o lar como único espaço de trabalho. Porém apenas nas décadas de 1950, 60 e 70 as mudanças fundamentais no papel social da mulher passaram a se efetivar.

Mais recentemente, com a cultura da pós-modernidade, a tecnologia passou a ser ainda mais relevante para o cotidiano, especialmente para o mundo do trabalho, requerendo menos trabalho braçal e, em paralelo, maior preparação técnica e intelectual. Em decorrência oportunizou condições cada vez mais favoráveis para a inserção do trabalho da mulher nos mais diferentes ramos de atividade.

Obviamente, vale dizer que as aspirações femininas variam conforme seu nível de esclarecimento, mas também conforme a cultura em que a mulher está inserida. Daí cabe perguntar qual o papel da mulher na nossa sociedade?

Há maior autonomia, liberdade de expressão, emancipação do seu corpo, de suas ideias e posicionamentos?

A realidade mais atual com o recrudescimento do preconceito em todas as dimensões (de etnia, de gênero, religiosa e até na cultura e nas artes) e do ódio (com o aumento da violência doméstica e do “feminicídio”) recolocam a preocupação com o lugar da mulher na sociedade.

As mulheres tem sido alvo de diversos tipos de violência desde o assédio verbal, do uso de imagens que exploram atributos físicos e muitas vezes até a violência definitiva – a morte. Em diversos países do mundo a violência contra a mulher tem base em questões de ordem religiosa, mas em nosso país se sobressai a motivação de fundamento cultural.

Aqui a violência contra a mulher é uma construção social, resultado da desigualdade de força nas relações de poder entre homens e mulheres e que é reproduzida pela sociedade.

E agora, com a autorização facilitada para a posse de armas, mais um espectro virá a assombrar as mulheres. Isso porque, comprovadamente, dois em cada três feminicídios acontecem a portas fechadas – no reduto do “lar”. Fato que demonstra que o ambiente doméstico é mais perigoso que o público, ao menos para as mulheres.

É importante entender a segurança pública como independente do caráter violento do criminoso ou da fragilidade defensiva da vítima. Trata-se de problema complexo, social e também político que não será equacionado com mais armas à disposição.

Certamente a baixa participação das mulheres na política é o principal obstáculo ao adequado encaminhamento das questões de gênero aos órgãos institucionais e públicos. Segundo a União Interparlamentar (UIP) Brasil é apenas o 116º em ranking de 190 nações com participação de mulheres em espaços políticos.

Em suma, por ser a dimensão do poder, a política representa o espaço a ser conquistado pela mulher do Século XXI.

1 Comentário

  1. Só gostaria de lembrar que pra um feminicídio, no reduto do “lar”, não precisamos de armas de fogo. Basta uma faca ou outro objeto, ou até mesmo as próprias mãos. Relembro inclusive o duplo feminicídio que tivemos em Blumenau em 2018, de nossa saudosa Franciele Will e sua mãe.

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